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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Espiritualidade e Transformação




A impermanência é um interessante princípio do Budismo. Esse princípio básico do Budismo considera que nada é permanente, tudo está em constante transformação. E esse conceito encontra um paralelo no princípio dinâmico do Cristianismo que podemos denominar de inconformismo, como expressa o apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Esse inconformismo implica numa mudança constante de atitude, que ao transformar a pessoa, também altera a realidade, transformando as circunstâncias. Tanto a impermanência quanto o inconformismo levam necessariamente ao ato de transformação dinâmica e constante. Uma transformação iniciada em nós e refletida no mundo por ações que promovem mudanças. E isso é bastante positivo. Tanto do ponto de vista de aprimoramento pessoal e do mundo, quanto da qualidade e da significação da vida. Em outras palavras esses princípios dinâmicos de espiritualidade são promotores da saúde integral de qualquer pessoa que decide abraça-los.
Digo isso porque há um conceito psicanalítico fundamental no pensamento de Bion denominado “invariância”. Esse termo foi adotado por Bion a partir de um conceito emprestado da matemática e da física que definem a propriedade de uma dada grandeza que jamais sofre mudanças, permanece sem qualquer variação independente das circunstâncias. Bion utiliza esse termo para determinar um tipo de pensar que não varia e permanece num estado congelado. Esse tipo de pensar que não apresenta variações é um modo de funcionamento psíquico patológico e, portanto, gerador de sofrimento. Assumir um estado de transformação constante, mesmo que algumas vezes angustiante para o Ego, é uma atitude salutar para a mente e para o espírito. Estar numa atitude de transformação é algo dinâmico que nos leva sempre ao novo, liberta da alienação e do autoexílio. Abrindo possibilidades, oportunidades e, o mais importante, o relacionamento com o outro.
Na tradição religiosa a transformação passa necessariamente pela espiritualidade, pelo cuidado e aprimoramento da alma em relação ao divino/sagrado. Por sua vez a espiritualidade depende de uma vida emocionalmente saudável. Nós somos seres integrais e uma coisa não pode estar dissociada da outra. Quando a vivência espiritual se dissocia da emocional pode-se geral o que no pensamento psicanalítico de Winnicott denomina-se “falso Self”, uma estrutura psíquica de caráter psicótico que tenta ‘enganar’ com falsas mudanças. Esse modo de funcionamento psíquico perde o equilíbrio com o tempo e desestabiliza o sujeito, causando a regressão ao estado inicial de congelamento.
Assumir que devemos estar em constante transformação, como sujeitos integrais (corpo, mente/coração e alma), nos possibilita caminhar pela estrada do amadurecimento, da integração do que almejamos ser com o que somos agora. Nada mais, nada menos do que Jung conceituou como individuação. E para medirmos se estamos no caminho certo deixo uma dica: o grau de espiritualidade é proporcional à sensibilidade que se tem para com a vida e para com o outro. A sensibilidade é um termômetro que demarca se estamos ou não nesse processo de transformação.