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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Discurso de Formatura – Universidade Mackenzie 2012




Por Regis Augusto Domingues
Turma Paul Tillich de Teologia – 17/08/2012

Boa tarde a todos!

Bem, como dentro de determinadas convenções e ideologias sou muitas vezes considerado um subversivo, então, para não perder a fama, inicio minha fala subvertendo a ordem de cumprimentos e aproveito para integrar a esses agradecimentos e felicitações.

Quero cumprimentar primeiramente a todos os familiares e amigos: que durante tanto tempo tiveram que se acostumar com nossas ausências. Foram tantas noites dedicas aos estudos que nos obrigavam a chegar tarde da noite em casa, prejudicando o convívio familiar mais intenso, ou recusar aquele convite para um bate-papo com os amigos. Fora os finais de semana e feriados quando nos debruçávamos sobre os livros.  Tantas vezes deixamos nossos lugares vazios à mesa do jantar. Quantas vezes suprimimos tempo da atenção devida aos filhos para cumprirmos as exigências do curso. Quantas vezes a esposa ou o esposo, namorada ou namorado, ouviram as lamentações e as dificuldades que enfrentávamos no curso e quando pensávamos em desistir nos ofereceram palavras de incentivo e ânimo.  Quantas vezes deixamos de partilhas boas conversas e experiências com amigos e familiares.

Por tudo isso, pelo reconhecimento de tudo que representam para nós, esse momento é dedicado a vocês: familiares e amigos.  Vocês são as pessoas mais importantes nesse rito acadêmico. Sem vocês não teríamos chegado até aqui.

Cumprimento aos meus colegas de turma pela vitória! Chegamos até aqui e conquistamos mais uma etapa da vida.
E finalmente gostaria de cumprimentar a mesa na pessoa do Prof. Dr. Edson Pereira Lopes e estender minhas estimas e considerações ao nosso Patrono – Prof. José Roberto, nossa Paraninfa - Prof. Lídice e nosso Homenageado – Prof. Lindberg que nos acompanharam durante toda a nossa caminhada como alunos de Teologia.

Bem meus queridos,

Há um texto do poeta Fernando Pessoa que diz o seguinte:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado, à margem de nós mesmos”.

Num primeiro momento esse pensamento de Pessoa pode refletir a minha e a sua individualidade, mas quando leio esse texto penso muitas vezes na própria Teologia.

Então me arriscaria em parafrasear o poeta da seguinte maneira:

Há um tempo em que é preciso abandonar as velhas e usadas formas de pensar a Teologia, que já tem a forma de um corpo dogmático e fechado, e esquecer os caminhos com os quais nos acostumamos e que nos levam sempre aos mesmos pensamentos. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado à margem do propósito de Deus.

Às vezes tenho a impressão que os teólogos andam pela sociedade, pelo mundo, de olhos vendados distribuindo discursos que mais parecem velhas lições tiradas de baús encerrados nos séculos passados e tentam responder a perguntas que ninguém mais faz.

Por isso, a Teologia deve se desvencilhar das formas quadráticas de pensamento e da rigidez dogmática, sem, contudo, cair nas armadilhas do cientificismo fragmentário do nosso tempo, alicerçado nos princípios cartesianos e positivistas. Para tanto, a Teologia deve optar por um "desentrincheiramento" formador e por uma “heresia metodológica”, para mencionar termos do acadêmico de Harvard Roberto Mangabeira Unger.

É claro que a Teologia, diferente das demais áreas do conhecimento, não parte de constatações empíricas ou de objetos de estudos concretos e bem definidos em laboratório, ao contrário, a Teologia cristã ocidental, parte do que chamamos de revelação. Por definição o objeto de estudos da Teologia não é Deus, como comumente se possa pensar, mas a revelação desse Deus que se apresentou de diversas formas para uma comunidade de fé. Essa comunidade de fé iniciou uma tradição oral acerca do que Deus representava em sua vivência comunitária e, por fim, no decorrer de séculos, essa comunidade de fé constituiu um conjunto de textos que hoje é conhecido como Sagradas Escrituras. O objeto de estudos da Teologia é, portanto, a Bíblia, esse conjunto de sabedoria milenar referendada pelo tempo. Não é papel da Teologia preocupar-se com a mera concepção etérea e metafísica da vida, até porque seu objeto de estudo desenvolveu-se a partir da experiência humana comunitária com o transcendente. O papel da Teologia é, antes, promover um conjunto de valores que influenciem diretamente no ‘destino’ da humanidade. O papel da Teologia é integrar na vida humana uma relação de valores que influenciem positivamente a forma de pensar e agir de pessoas “de carne e osso” [Para lembrar uma expressão de Miguel de Unamuno]. Pessoas que têm sentimentos, emoções, afetos, questões existenciais e sociais, pessoas assombradas por suas dúvidas e incertezas, e que buscam sentido, significação e respostas.

Partindo de seu objeto de estudo, portanto, proponho que a Teologia deva optar necessariamente por uma epistemologia crítica e uma metodologia transdisciplinar com vistas a uma prática pública. Apresentando-se como um saber dentro da proposta de transversalidade e de religação dos saberes, tornando-se relevante para os diálogos atuais da sociedade. O papel da Teologia deve ser antes de tudo o de proporcionar a compreensão da transcendência e da condição existencial no mundo por meio de um debate aberto, correlacional e integrador entre a revelação divina e a realidade humana. Sempre preservando a dignidade e a liberdade de todas as pessoas, sem exceções, uma vez que foi para a Liberdade que Cristo nos libertou.

Diante das crises e das convulsões que a sociedade contemporânea atravessa, e alguém já disse que isso é sinal de profundas e positivas mudanças, não fiquemos, colegas formandos, escondidos atrás de nossos diplomas, antes ousemos ser pensadores livres e independentes, que contribuem para que as pessoas consigam fazer as perguntas certas e para encontrarem as melhores possibilidades de respostas e caminhos. Portanto, utilizemos o conhecimento adquirido nesses anos de estudos, somados aos dons e talentos concedidos por Deus para fazermos da Teologia um saber convergente e integrador nas Ciências Humanas e uma voz profética e transformadora na sociedade. Não podemos nos contentar apenas em reproduzir o que já foi pensado, mas antes precisamos produzir um novo pensar e um novo agir teológicos.

Direi aqui o mesmo que já disse como consultor de empresas a muitos executivos que mesmo à frente de uma empresa a beira da falência permaneciam escondidos por atrás de seus diplomas. Como se o diploma o pudessem isentar de uma gestão desastrosa. Do mesmo modo não poderemos ser Teólogos que se escondem atrás de seus diplomas diante de uma Teologia desastrosa.

Eu costumo dizer o seguinte a esses executivos e digo hoje a nós formandos: ‘Um diploma nas mãos de uma pessoa sem talento e competência presta-se a mesma funcionalidade de um papel higiênico. ’
Portanto, exerçamos os talentos com os quais Deus nos dotou e usemos de competência, que significa nada mais, nada menos do que fazer as perguntas certas diante de determinadas circunstâncias com o objetivo a se escolher e se alcançar determinada prática e objetivo.

Caros colegas, não precisamos temer ao sermos tachados ou rotulados de hereges, ou melhor, para utilizar um conceito goffmaniano, não precisamos temer ao sermos estigmatizados como hereges quando ousarmos pensar além das fronteiras pré-definidas. E já disse certa vez um querido professor: ‘Herege é todo aquele que pensa diferente de quem detém e está no poder’. E que Deus salve os hereges! Não fossem os hereges não teríamos hoje o que chamamos de boa Teologia. Santo Agostinho não seria Santo Agostinho, ícone da Patrística, não fosse as controvérsias provocadas pelas ‘heresias’ de Pelágio. O Concílio de Niceia não produziria as bases teológicas do Cristianismo não fossem as heresias de Ário. E lembremos que para a teologia constituída pela Igreja em Roma, predominante no século XVI, Lutero, Calvino, Thomas Cranmer, dentre outros reformadores, foram considerados os hereges de sua época. E que Deus continue nos concedendo hereges assim, para ventilar ares sábios a produção teológica!

E por fim gostaria de lembrar um dos mais belos trechos da literatura mundial do livro Dom Quixote de La Macha de Miguel de Cervantes. Que considero poderia ser nosso lema ou mesmo o nosso juramento nesse dia. Afinal, a batalha de um teólogo é muitas vezes quixotesca.

Daqui à pouco nossa colega fará o juramento oficial, que chamarei de juramento canônico, mas agora proponho um outro juramento que chamarei de juramento apócrifo.

Dom Quixote fala da missão de um verdadeiro cavaleiro, eu ao parafrasear o texto de Cervantes falarei da missão de um verdadeiro Teólogo.

O que importa é ser fiel a minha causa. A missão de um verdadeiro TEÓLOGO, sua questão, seu ideal, não, seu privilégio é:

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível das injustiças
Negar quando a regra é vender-se ao mercado
Sofrer a tortura implacável que nos impõem os opressores
Romper a incabível prisão dos dogmas
Voar no limite improvável de um novo pensar
Tocar o inacessível coração
Dominado pelo individualismo e alienação
É minha lei
É minha questão
Mudar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras ideológicas terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

Mesmo que apenas uma flor brote do chão árido desse conturbado mundo, nossa luta terá valido a pena.

Queridos colegas meu desejo e oração é que, assim como os discípulos a caminho de Emaús, possamos ter nossos corações aquecidos pelas palavras do próprio Cristo e no partilhar da vida com outras pessoas, representada na Bíblia pelo partir do pão, possamos ter nossos olhos desvelados para, então, perceber que o próprio Cristo sempre esteve, está e permanecerá conosco nessa jornada como Teólogos.

Muito Obrigado!

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