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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

RECONHECER O MEDO E VIVER A JORNADA

Cronos - Ilustração de William Blake

por Regis Augusto Domingues

Ilusão! Assim vivemos a maior parte da vida. Achamos ter o controle de tudo ao nosso redor e que somos senhores de nossos atos e decisões, mas na verdade perambulamos por aí sob a sombra do medo, sem ter certeza de quando e aonde chegaremos. Furtamo-nos de encarar quem realmente somos e nos deixamos dominar pelo medo, preferimos o conforto neurótico do que nos é imposto ao labor de nos construirmos a partir de quem realmente somos. Então, somos dominado pelo medo que alimenta nossas ilusões. Portanto, o maior medo a ser enfrentado ao deparar-se com a finitude da condição humana em sua própria história de vida não é o medo da morte. O maior medo é perceber que não se viveu de verdade a própria vida, antes se viveu a vida e os desejos de outro.
É necessário reconhecer o medo e viver a própria jornada. Como C.G. Jung expressou certa vez: "Uns sapatos que ficam bem numa pessoa são pequenos para outra; não existe uma receita para a vida que sirva para todos”. É preciso calçar os próprios sapatos e trilhas o próprio caminho. Como bem intuiu o poeta servilhano Antônio Machado:
 Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.


É preciso reconhecer que se tem o próprio caminho a fender e trilhar, não permitindo que o tempo perdido devore a vida que se resta. Cronos o senhor do tempo está pronto a devorar-nos. Segundo a mitologia grega Cronos, que equivale a Saturno no panteão romano, era a divindade suprema da segunda geração de deuses da mitologia grega e titã do tempo. Seu nome dá significado ao "tempo", pois assim como o tempo Cronos devora aos que gera. Considerado o mais jovem dos titãs era Filho de Urano, o Céu estrelado, com Gaia, a Terra. Conta a mitologia que Influenciado por sua sua mãe castrou o pai com um só golpe de foice e assim se tornou senhor do céu. Cronos inaugurou a era dos Titãs, a segunda geração de deuses gregos. Cronos casou com a sua irmã Réia, que lhe deu seis filhos (os Crónidas): três mulheres, Héstia, Deméter e Hera e três rapazes, Hades, Poseidon e Zeus.
Como tinha medo de ser destronado, carregando a lembrança do que fizera com o pai, Cronos engolia os filhos ao nascerem. Comeu todos exceto Zeus, que Réia conseguiu salvar enganando Cronos ao enrolar uma pedra em um pano, a qual ele engoliu sem perceber a troca. Quando Zeus cresceu, resolveu vingar-se de seu pai, solicitando para esse efeito o apoio de Métis - a Prudência - filha do Titã Oceano. Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o fez vomitar os filhos que tinha devorado.
Viver a própria vida consiste em encarar o tempo que ainda resta e enfrentar os próprios medos numa atitude de profundo autoconhecimento. Nossa poção mágica é tomar consciência do que se está guardado, reprimido, ocultado na sombra e integrar criativamente tudo que faz parte de si mesmo.

O maior medo não é a morte propriamente dita, mas é perceber que se está morto para si mesmo ao viver a vida que outros lhe impõem. O maior erro não é apenas aceitar tudo como um mero destino e se deixar apenas ser devorado pelo tempo. O maior erro é não tomar consciência disso e apenas assumir a vida e desejo de outro. Apenas viver para fora é morrer dentro de si mesmo. Despertar para dentro é viver verdadeiramente para fora.


"Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta." C. G. JUNG

Bibliografia Recomendada


HOLLIS, James. A Passagem do Meio: da miséria ao significado da meia-idade. Editora Paulus: São Paulo, 2006.


___________. Nesta Jornada que Chamamos Vida: vivendo as questões. Editora Paulus, 2004.

__________. Sob a Sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens. Editora Paulus, 2004.

JUNG, C. G. Memórias, Sonhos e Reflexões. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2000.

VON FRANZ, Marie-Louise. Reflexos da alma : projeção e recolhimento interior na psicologia de C.G.Jung. Ed. Cultrix: São Paulo, 1992.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

JOHN STOTT - Apaga-se um candeeiro da fé



Reino Unido, cidade de Londres, 3h15 da madrugada de uma quarta-feira - apaga-se um luminar da fé cristã.
No tempo e no espaço finito da condição humana parte desse mundo terreno, aos 90 anos de idade, e deixa saudades um dos maiores pensadores do Cristianismo contemporâneo,  o Reverendo Anglicano JOHN STOTT. O reconhecido e respeitado teólogo e pastor de almas, que serviu a Igreja de Cristo em todo o mundo com seus livros, pensamentos e exemplo de vida, deixou nossa convivência temporal para estar na eterna e gloriosa presença de Deus, na companhia de todos aqueles que um dia também partiram na fé. A vida de John Stott é um exemplo de dedicação ao evangelho e de serviço inabalável à Deus para a propagação do dom da graça em Jesus Cristo. Mesmo sendo clérigo da Igreja Anglicana, tendo sido pastor na paróquia All Souls em Londres, Stott sempre esteve presente na vida da Igreja em todo o mundo, influenciando gerações inteiras de cristãos em todas as denominações cristãs. Sua falta nesse mundo deixará uma lacuna que somente poderá ser preenchida pelo toque consolador do Espírito Santo. Registro aqui minha homenagem a esse homem de Deus que foi, é e continuará sendo exemplo de fé.


Oremos:


Deus Todo-Poderoso, com quem vivem os espíritos dos que morrem no Senhor, e com quem as almas dos fié
is estão em alegria e felicidade; damos-te graças, de todo o coração, pelos bons exemplos de todos os teus servos, especialmente JOHN STOTT, que, havendo terminado em fé sua vida terrena, desfrutam agora o descanso e paz... e te rogamos que, alegrando-nos em sua comunhão, seguindo seus bons exemplos e encorajado por suas orações, sejamos com ele participantes do teu Reino. (Livro de Oração Comum)


Unidos com seu servo John Stott, que agora desfruta de sua gloriosa presença na companhia de todos os teus santos e santas em todos os tempos, nós te louvamos e te damos glórias oh Deus Eterno, por teu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor!

Na certeza de que nosso Senhor Jesus Cristo mesmo disse: 'Eu sou a Ressurreição e a Vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá eternamente' João 11:25

John Stott deixa saudades, mas também uma viva esperança no coração daqueles que, de alguma forma, tiveram contato com suas obras.

quinta-feira, 10 de março de 2011

PENSAR É TRANSGREDIR


de LYA LUFT

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

(trecho do livro de coletânea de crônicas de Lya Luft: "Pensar é Transgredir" - Editora Record)