Minha Proposta é a Reflexão.

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Um livre pensador, amante da vida e do Deus que a criou.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

JOSÉ


de Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A Vida Ensina


de Arthur da Távora






Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe.


Se você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu pensamento; que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema, aquele que começa pelo fim.


Se você faz exames demais; que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando.


Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.


Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência. Tanto mais lúdica quanto mais complexa. Tanto mais complexa quanto mais consciente. Tanto mais consciente quanto mais difícil. Tanto mais difícil quanto mais grandiosa.


Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade; que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.


Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas.


Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva. Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois. Que a vida ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.


Que aquele garoto que não come, coma. Que aquele que mata, não mate. Que aquela timidez do pobre passe. Que a moça esforçada se forme. Que o jovem jovie.Que o velho velhe. Que a moça moce. Que a luz luza. Que a paz paze. Que o som soe. Que a mãe manhe. Que o pai paie. Que o sol sole. Que o filho filhe. Que a árvore arvore.Que o ninho aninhe. Que o mar mare. Que a cor core. Que o abraço abrace. Que o perdão perdoe.Que tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a esperança.


Pois, do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo. A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

SONETO






Coração Entregue
(Soneto aos corações desprevenidos)

Por Regis Augusto Domingues

Há no coração sentimentos, pura atração.
Que nem mesmo ele entende.
Desses sem aviso, vem como invasão.
Tomado de amor ele mesmo ardente se acende.

Ah! Quando o amor flecha ao coração.
Até mesmo o mais forte,
Desprovido fica de sua proteção.
Desarmado, entregue à sorte.

Basta insinuante, sua musa aparecer.
Como Vênus, bela e atraente.
Fica ele indefeso, sem nada precaver.

O coração não tem ciladas, parece todo faceiro.
Mas sorrateiro o amor impertinente,
Quando chega sedutor, sempre é certeiro.

Poema


AMOR AMANTE
(Um Poema dos Amores Secretos por uma Mulher)
Por Regis Augusto Domingues

Amor, desatinado amor,
Quando chega, inesperado.
Para amar, a amada minha,
Tão de longe, tão de perto.
Seria delírio num deserto?
Não, apenas o ardor,
Corajoso aliado.
Inspiração que se alinha.

Eu, aqui sentado, pasmado, admirado.
A olhar tua beleza, sem manto.
Você, toda charmosa, doce encanto.
Eu aqui, coração batendo, desaprumado.

Ritmo de batida forte, tonante, vibrante.
Que deu seu próprio canto.
Você, irresistível magia, fascinante, exuberante.
Ah! Tanto amor, amor sim, e tanto.

Amada, minha amada, hei de sempre amar.
Quando o meu amor desvendado,
Na imensidão desse mundo revelado,
Desvelo intenso há de se aninhar.
Doce amor, sublime encanto.
Carinhoso beijo, terno aconchego,
Para tanto, amar.

Amor, jubiloso sentimento, até um canto.
Sim, mais nenhum pranto.
Tão feliz somente,
Com o amor da amada, amante.
Intenso afeto, imenso alento.
Desperta tão somente
Vida de amor amante
Perene, constante!