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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

RESENHA


Por Regis Augusto Domingues

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico, 21º edição. Zahar: Rio de Janeiro, 2007.


A Antropologia, principalmente na abordagem dos fenômenos culturais, tem se mostrado uma ferramenta importante para o trabalho teológico, tanto na formulação conceitual da teologia, quanto na práxis desses conceitos, principalmente quando tratamos da missiologia e a inserção dessa no contexto transcultural. E quando digo contexto transcultural penso tanto na vivência missionária em lugares e culturas distantes e bastante diferentes da nossa, como na missão feita nos púlpitos, praças e ruas no meio urbano, que pode se deparar, também, com uma infinita variedade cultural. Por isso, como um incentivo ao estudo e diálogo da Teologia com a Antropologia, quero com essa resenha despertar o interesse dos meus leitores pela abordagem cultural oferecida pela Antropologia e levar, aos que estudam a Teologia e fazem missão, a enveredarem-se no saboroso e enriquecedor diálogo interdisciplinar.



O livro de LARAIA é introdutório e, como todo bom trabalho acadêmico, não apresenta qualquer juízo de valor. O autor é professor titular da Universidade de Brasília e domina como ninguém o tema que se propõem a escrever, tanto que consegue sintetizar em poucas páginas um arcabouço teórico construído no decorrer de séculos por inúmeros pensadores e pesquisadores do campo da Antropologia.



A pequena brochura de LARAIA pretende traçar uma apresentação introdutória ao conceito antropológico de cultura num texto didático, claro e simples (p. 07). O tema é tratado no livro em duas partes. A primeira parte apresenta a herança teórica do conceito de cultura até os autores contemporâneos. A segunda parte aborda a influência que a cultura exerce no comportamento social e como produz, mesmo diante da constatação de unidade biológica, a diversidade nas sociedades humanas.



A primeira parte é iniciada com a discussão sobre as perspectivas do determinismo biológico como fator preponderante na formação e concepção da diversidade cultural. O autor apresenta razões que levam a conclusão de que essa perspectiva é equivocada, uma vez que, mesmo havendo diferenças determinadas biologicamente, como a de sexo por exemplo, a antropologia tem comprovado que atividades atribuídas à mulher em uma dada cultura podem ser atribuídas ao homem em outra (p. 19). Portanto, o comportamento de uma pessoa pode ser atribuído ao seu aprendizado, que o autor chama de um processo de endoculturação.



Na seqüência LARAIA aborda o pressuposto teórico do determinismo geográfico que considera os fatores ambientais como condição da diversidade cultural. Esse conceito é refutado pelo autor a partir das demonstrações de antropólogos como Boas, Wissler e Kroeber que apresentam as limitações do fator geográfico na formação da cultura, sendo que é possível encontrar uma diversidade cultural numa mesma localidade geográfica.



Os antecedentes históricos e o desenvolvimento do conceito de cultura são abordados na continuidade da primeira parte. Nomes como Locke, Turgot, Jean-Jacques Rousseau e Tylor são citados como formuladores iniciais desse conceito, concluindo, com uma citação de Geertz, que o grande número de definições contribuíram mais para a confusão do conceito do que para o seu esclarecimento, sendo necessário atualmente à antropologia delimitar e reconstruir o conceito para transformá-lo num instrumento teórico mais eficiente. Debatendo sobre algumas escolas antropológicas apresenta uma perspectiva do desenvolvimento histórico do conceito de cultura.



A origem da cultura e as teorias modernas sobre o tema são examinados nas últimas considerações da primeira parte do livro. São abordados alguns teóricos que defendem o desenvolvimento do cérebro e a habilidade manual como fatores de origem da cultura e outros, como Lévi-Strauss e White, que defendem a idéia de que a cultura surge na convenção de normas e na formulação simbólica. Utilizando o esquema elaborado pelo antropólogo contemporâneo Roger Keesing, o autor sintetiza os esforços de reconstrução do conceito de cultura nos estudos atuais da antropologia, concluindo, assim a primeira parte do livro.



Na segunda parte do livro LARAIA inicia discorrendo como a cultura condiciona a cosmovisão do homem em sociedade. Citando a importante antropóloga Ruth Benedict o autor deixa claro a proposta da segunda parte: “a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo” (p.67). São considerados nessa parte as questões de ordem moral, valores, comportamentos e posturas corporais como heranças culturais (p.68) e o conceito de etnocentrismo como fenômeno universal.



Na continuidade o autor aborda a maneira que a cultura opera dentro de uma lógica própria que somente pode ser entendida pela classificação, pela compreensão das categorias entendidas pela linguagem da própria cultura. Dessa maneira, pode-se entender como a cultura influencia os aspectos biológicos, como no caso do xamã que proporciona a cura de doenças, sejam reais ou imaginárias, quando do exercício da fé do doente sobre o remédio ou sobre o poder do xamã. E de como, mesmo havendo regras gerais ou etiquetas sociais necessárias para a convivência em sociedade, ninguém domina totalmente os elementos de sua cultura. Há diferenças na participação de cada pessoa na cultura, seja por fatores cronológicos ou meramente cultural.



O autor, por fim, concluí a segunda parte e termina sua explanação do conceito antropológico de cultura apontando o dinamismo cultural. Segundo as considerações do autor o sistema cultural está sempre em mudança (p.101) e o entendimento desse processo dinâmico é importante para amenizar o choque entre gerações e os preconceitos dentro de um mesmo sistema ou fora dele. LARAIA termina com uma expressão poética: “Este é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo do porvir” (p.101).
Depois da conclusão dois anexos ainda são acrescidos ao breve tratado de LARAIA como exemplos que contribuem para maior entendimento de todo o conceito de cultura discutido no decorrer do livro.



O livro de LARAIA parece cumprir ao seu objetivo iniciando o leitor nos princípios do conceito antropológico de cultura. LARAIA pode ser parabenizado por conseguir condensar, de maneira clara a discussão da complexidade do conceito de cultura nas várias escolas antropológicas e nos vários períodos históricos que essas se desenvolveram. O autor utiliza muitas citações durante o desenvolvimento do texto, isso, a princípio, pode tornar a leitura um pouco monótona, mas ao final pode ser percebida como uma excelente oportunidade de contato com os textos clássicos da antropologia cultural.



Apesar da complexidade do tema o livro de LARAIA deixa para o leitor alguns parâmetros para o entendimento do conceito e do modo como a diversidade cultural se expressa na vivência humana. A bibliografia ao final do livro pode ser considerada uma referência importante para o aprofundamento dos estudos sobre o tema.



Recomendo a leitura do livro a todos que queiram se iniciar no estudo da Antropologia Cultural e promover um diálogo entre esse campo do saber humano e a teologia, principalmente aos estudantes de missiologia e missionários.

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