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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O Sofrimento e as Perguntas Sem Respostas.

Por Regis Augusto Domingues

Quando nos deparamos com a condição da existência humana invariavelmente nos perguntamos o porquê do sofrimento. O porquê de sermos assolados por tantos conflitos, desastres e problemas? Porque a humanidade tanto na perspectiva individual quanto numa perspectiva mais ampla e global passa por tanto sofrimento e dor? A mídia atualmente explora esse lado obscuro da existência: desastres naturais, pessoas mortas a esmo por seus semelhantes, pais ceifando a vida de seus filhos, filhos sem qualquer dor de consciência matando seus pais, guerras, terrorismo, famílias desfeitas, gente morrendo por fome, pessoas tentando sobreviver em condições totalmente indignas, pessoas em estado de profunda depressão, outros se refugiando em estados de aparente euforia. Alguns corações arruinados e amargurados, outros tantos destroçados e desesperançados, outros, ainda, buscando manter um pouco de esperança.


Diante desse quadro trágico da vida humana alguns buscarão respostas outros apenas se conformarão. Os mais céticos dirão que as coisas são assim mesmo devido ao egoísmo humano, acrescentando que o sofrimento é a maior prova de que não existe um Deus bom, pois, se Deus existe porque permite o sofrimento? Outros mais piedosos dirão que isso é a vontade de Deus e que devemos buscas a Deus para resolver nossos problemas. Muitos apenas dirão que é o pecado e pronto. Outros, ainda, mais pragmáticos dirão que é necessário sermos solidários e colocarmos um plano de ajuda humanitária em ação. Outros tantos negarão até o fim a realidade do sofrimento e dirão que tudo depende de uma disposição mental positiva. Alguns mais acalorados por suas convicções religiosas, com um discurso apocalíptico dirão que é o fim dos tempos. Mas o fato é que ao olharmos para a História da humanidade não há dúvidas que o sofrimento acompanha o caminhar do ser humano desde seus primórdios.


O ser humano anseia por respostas. A filosofia, as demais ciências humanas, a teologia e as diversas religiões tentam a todo tempo apresentar respostas prontas para as mais diversificadas circunstâncias. Mas parece-me que por mais elaborada, racional e lógica que algumas respostas possam parecer isso nem sempre é suficiente para aquela pessoa que passa por seu drama pessoal. Quando uma pessoa vem ao meu encontro com os olhos cheios de lágrimas, com o coração vazio e desesperançado, com profunda dor em sua alma, palavras e respostas prontas nunca são adequadas ou suficientes. Abrir a Bíblia e dizer algumas palavras hoje me soa como formalismo vazio e insuficiente para tocar a realidade da alma que sofre. As realidades da dor e do sofrimento, do drama e da tragédia continuam lá atormentando o coração e a mente dessa pessoa. Apelar para o conhecimento da psicologia é tão ou mais irrelevante ainda na maioria dos casos. Perante o atormentado sofrimento da alma humana, diante de uma pessoa que sente seu coração rasgado ou dilacerado pouca ou nenhuma palavra parece ajudar. A única possibilidade de ajuda talvez seja o um gesto de acolhida, uma demonstração de afeto e a velha e boa escuta. Tentar argumentar com uma alma que sofre é como sufocar alguém que já está imerso no mar sem condições de respirar. Nesse caso talvez o toque e a atitude de escuta sejam mais pertinentes. Quando alguém está imerso no mar da desolação a ponto de se afogar o melhor a fazer é mergulhar no drama alheio e apoiar a pessoa para sair renascida da situação ou estender uma mão que ampare a emersão dessa pessoa para uma nova etapa da vida. Isso é misericórdia e é isso que tenho percebido como a ação de Deus em meio ao sofrimento humano.


Atualmente quando observo minha própria biografia não posso condenar aqueles que deixam a esperança, aqueles que abandonam a fé, aqueles que se revoltam com Deus e a vida. Em certo momento da minha vida, ainda jovem, protegido por uma série de artifícios e defesas internas, achei que passaria incólume pela vida. Quando abracei a fé cristã isso ficou ainda mais patente ao ser alimentado por um discurso triunfalista e ingênuo transmitido por uma teologia distorcida, mas eloqüente. Durante muito tempo passei a vida protegido por minhas muralhas, em relacionamentos superficiais, passando por cima dos acontecimentos ao meu redor, alimentando-me de respostas prontas obtidas tanto da minha vivência intelectual quanto de minhas experiências religiosas. Mas de certo era um ser humano medíocre e imaturo. Na adolescência ignorara a morte prematura de um irmão acometido pela AIDS, como se esse acontecimento não tivesse grande significado o transformei num tabu. Passei ao largo de muitos problemas familiares, não derramei uma lágrima se querer no falecimento de meu pai, hoje sinto saudades e o pesar de não ter dito tudo que deveria ter dito antes dele partir. Isso tudo porque pensava ser capaz de construir uma ponte fortificada que passaria sobre o lamaçal do sofrimento. Até certo ponto confesso que a religião contribuiu em muito com esse estado de quase transe.


Desculpem-me aqueles que sofrem mais preciso dizer-lhes que não há respostas satisfatórias e muito menos genéricas para aquilo que passamos e que por mais que você tente se proteger e por mais que faça a coisa certa, nada o isentará de um momento trágico ou dramático na vida.


Hoje passo por um dos maiores dramas em minha própria vida. Por toda minha vida sonhei em constituir uma família, ter filhos e depois de um processo de conversão religiosa, acreditei que meu matrimônio e minha família poderiam ser meios de abençoar outras pessoas. Nesse momento sou plenamente consciente de que incorri em uma série de projeções e idealizações que não condiziam com a realidade. Afinal, C.G. Jung já afirmava: “Do mesmo modo que estamos inclinados a aceitar que o mundo é assim, tal como o vemos, aceitamos também ingenuamente que as pessoas são assim, tal como as imaginamos”. Mas de qualquer maneira orei todos os dias por meu matrimônio, tentei ser, mesmo com as imperfeições inerentes a minha condição de homem, um bom pai e esposo. Nas crises supliquei a Deus seu amparo e poder transformador. Algumas coisas mudavam, outras permaneciam como estavam. Em alguns momentos minhas orações não eram respondidas, em outras talvez. Até então minha auto-suficiência me impedia de buscar ajuda no mundo real, me questiono se tinha amigos. Depois de algum tempo me revoltei diante de Deus, depois me reconciliei, mas por fim desisti de lutar pelo casamento. Agora passo por uma difícil circunstância de separação, esse drama que somente aqueles que passam sabem o que é. Apostei tudo que tinha em meu matrimônio e família, mas perdi. Mesmo orando e lutando por tudo que sempre acreditei perdi, tudo acabou. Faço questionamentos? Busco respostas? Claro que sim, afinal sou humano, mas sei que qualquer resposta será insuficiente ou até mesmo não exista. Apesar de tudo, ainda acredito que o Cristianismo oferece a melhor maneira de enfrentar o sofrimento. Mesmo não oferecendo respostas prontas e satisfatórias para o drama humano, o Cristianismo apresenta a melhor forma de se encarar a dor.


A Bíblia está repleta de histórias, relatos, pensamentos e poemas que expressão o sofrimento humano, sendo que incontáveis vezes esses ocorrem com a permissão de Deus. Por quê? Difícil, como já disse, encontrar respostas satisfatórias. Mas quando folheio minha Bíblia e me aproximo de maneira desapaixonada de textos como o livro de Jó, os percalços da vida de Davi e Daniel, as inquietações de Jeremias, as dores de Oséias, os tormentos do apóstolo Paulo e por fim os sofrimentos de Jesus Cristo, para mim fica claro que em nenhum momento o sofrimento é omitido da vida de fé ou respostas prontas de consolo são dadas. O que vejo são pessoas inconsoláveis passando pelas mais complicadas circunstâncias.


O livro de Jó é assustador. Como um homem considerado justo poderia, com a permissão de Deus, perder tudo, propriedades, família e ainda ser acometido por uma sórdida doença? Além de sua triste condição Jó enfrentou os costumeiros questionamentos da esposa, de amigos e de seu próprio coração. Depois de toda uma história de sofrimento, de luta pessoal e com Deus, o livro de Jó termina com seu protagonista percebendo que em nenhum momento fora abandonado por Deus. O final dessa história é feliz, pois, tudo o que Jó havia perdido lhe é restituído em proporção maior. Mas nem sempre é assim na vida real. A única coisa que posso afirmar é que diante do sofrimento você nunca será abandonado por Deus. A maneira que o Cristianismo enfrenta o sofrimento é essa, a certeza de que Deus está presente com cada pessoa em seus dramas. Em todas as incertezas e desventuras da condição humana Deus está presente, apoiando ou carregando em seus braços cada pessoa. Essa mensagem se traduz claramente na pessoa de Jesus Cristo. Diz o apóstolo Paulo que Jesus é o próprio filho de Deus que espontaneamente deixou sua condição de glória divina para viver a condição humana e sofrer as dores inerentes a essa condição. Quando observo os quadros de Caravaggio, como o que coloquei acima, fico perplexo diante do realismo e naturalismo barroco com que ele retrata algumas passagens bíblicas. Quando olho para essa pintura de Caravaggio me comovo ao ver a coroa de espinhos sendo enterrada na cabeça de Cristo. O interessante é que Caravaggio retrata a cena fora do contexto de época do relato bíblico. Ao repararmos nos detalhes percebemos que os homens que estão na cena com Jesus estão vestidos com o estilo da época do próprio Caravaggio, ou seja, século XVII. Penso que a cena retrata os sofrimentos da condição humana com que Jesus é coroado em cada época da História, ou seja, Ele mesmo, Jesus participa desse sofrimento com cada pessoa em todo e qualquer tempo da História.


Como já havia dito meu caro leitor, não tenho respostas nem receitas, mas apenas sei que diante da tragédia que você vive ou viveu Deus em momento nenhum o abandonou. Antes esteve ao seu lado para que de alguma forma houvesse crescimento. Aliás, nós temos uma escolha a fazer diante do sofrimento, passar por ele crendo que Deus nos sustenta com sua bondosa mão, mesmo que em completo silêncio, ou assumir uma atitude de amargura. A primeira opção nos levará a grandes experiências de crescimento e amadurecimento, a segunda a um estado de doença crônica da alma.


Desculpe-me a franqueza mas diante da perplexidade da vida não existem respostas e soluções prontas, nenhum psicotrópico, nenhum ansiolítico, nenhum dinheiro, nenhuma moral, nenhuma escola de pensamento, nenhuma descoberta científica resolverá o problema insolúvel do sofrimento.


A cada dia que me olho no espelho percebo que aos poucos as marcas do tempo vão deixando suas impressões em meu rosto, estou envelhecendo. Os cabelos são mais escassos a cada dia, os poucos que persistem começam a embranquecer. E o mais terrível já começou a acontecer. Outro dia reparei um pêlo nascendo em minha orelha. Talvez porque me venham reminiscências da infância e me lembre da figura de meu avô já velhinho e careca, mas com algo espantoso que muito me intrigava quando criança. Ele já não tinha mais cabelos, mas suas orelhas eram cheias destes. Isso para mim significa a prova cabal de que entrei na estrada do envelhecimento. Já estou na segunda metade da vida e, portanto, passo a encarar a vida de outra forma. Citando novamente o sábio C.G. Jung: "Uns sapatos que ficam bem numa pessoa são pequenos para uma outra; não existe uma receita para a vida que sirva para todos”. Durante grande parte de minha vida andei com sapatos apertados demais, andei com sapatos que não me serviam, vivi como se fosse outro ou para outros. Mas agora já na segunda metade da vida visto meus próprios sapatos, mas resta-me apenas meia sola, então, começo a valorizar as coisas realmente importantes, não há mais tempo a ser perdido em busca de respostas ou na construção de discursos e pretensas receitas triunfalistas. É o tempo da maturidade, começo a ver as coisas com maior objetividade, profundidade, sensibilidade e amor. Hoje sei o que é perdão, graça e misericórdia. Então minha mensagem para você meu querido leitor ou querida leitora é que não perca tempo buscando explicações para as tragédias da vida e nem tente aplicar receitas prontas em sua vida para tentar isolar o sofrimento, ele sempre será inevitável. Apenas passe pelo que você tem que passar e viva com ternura e amor, não se feche, mas antes se abra para a vida. Abandone o medo e cresça quando a vida te permitir crescer em meio ao sofrimento. Você poderá fazer isso de várias maneiras, afinal, como eu mesmo disse ao citar Jung, cada um tem seus próprios sapatos. No entanto, tente fazê-lo na companhia e com a ajuda de Jesus Cristo.


Talvez você pergunte se acaso sou alguém amargurado ou com falta de fé. Acalme-se não sou um apóstata, pelo contrário. Hoje minha fé em Deus é muito mais profunda e inabalável do que antes. Mesmo diante das incertezas sei que Deus está tecendo a História e isso para mim é reconfortante, pois, por mais dura e difícil que seja a caminhada por essa jornada que chamamos vida sei que Deus, com amor e graça, me acompanha. Passar pelo sofrimento pode ser uma experiência transformadora quando a enfrentamos na presença de Deus. Não sei o que virá à frente, nós não temos o controle remoto da vida. Mas tenho convicção de uma coisa: todas as coisas se fazem novas, é o princípio da ressurreição, o cerne da vivência cristã. Muitas pessoas depois que superam a crise e o período de dor fecham-se para novas experiências de vida. Uma mãe que perdeu o filho recém nascido, depois de semanas de luto, decide nunca mais ter outro. O marido que perde prematuramente a esposa, que tanto amava, por causa de uma leucemia, decide nunca mais se entregar para outra mulher. Independente de qual seja ou tenha sido seu sofrimento, não deixe de viver, permita-se amar e ser amado. Passe por esse momento de amadurecimento e siga em frente! Talvez seja necessário recomeçar. Eu mesmo sou um romântico incurável, amo as mulheres, sei que será impossível deixar de ter uma paixão florescendo nesse coração já tão machucado e cheio de cicatrizes. Continuo a acreditar no matrimônio e na base familiar. Hoje, porém, estou convencido de que todo relacionamento envolve riscos e que esses riscos precisam ser encarados de forma sincera e terna. E que todo relacionamento deva ser de pessoa inteira para pessoa inteira, ninguém complementa ninguém, como retratado de forma divertidíssima no filme Divã. Nesse filme a protagonista, interpretada pela atriz Lília Cabral, é uma mulher quarentona, casada e com filhos, que em certo momento de insatisfação de sua vida inicia um processo de análise ao procurar um psicanalista. A partir de então a vida da personagem passa por uma série de dramas e transformações. Em uma das sessões de análise a personagem ao falar de seu casamento expressa exatamente essa questão: “é difícil se imaginar como a metade de uma laranja”. Ninguém é metade da laranja de ninguém. É fácil deixar de perceber que quando falamos de complementação estamos lidando com uma das maiores fraquezas da alma, a projeção. Quando dizemos que o outro me completa estamos dizendo na verdade que o outro deve suprir minhas necessidades e carências. A idéia de complementação esconde o processo de projeção que lançamos sobre o outro. Ao projetar no outro aquilo que falta em nós não somente tentamos trazer o outro em cativeiro como exigimos do outro que supra nossas carências afetivas. Por isso, os melhores relacionamentos sempre serão aqueles de pessoa inteira para pessoa inteira, sem projeção de expectativas, apenas compartilhando experiências e de forma consciente apoiando um ao outro, mutuamente.


Por fim, não tema parecer frágil ou desnudar suas fraquezas, eu não mais temo isso, por isso escrevo tão abertamente. De certo caminho com meus próprios sapatos. Mas o que realmente importa é que caminho ao lado de Jesus Cristo. Há uma antiga e conhecida história: Um homem sonhou certa vez que estava em uma praia na companhia de Jesus. A praia representava a vida desse homem. Quando ele olhou para trás percebeu que na maioria das vezes havia quatro pegadas na areia, mas nos momentos de maior crise e sofrimento o homem percebeu que havia apenas duas pegadas na areia da praia. Então o homem questionou a Jesus: “Senhor, vejo pelas pegadas na areia que nos momentos mais difíceis de minha vida não estavas comigo. Nos momentos em que mais precisei o Senhor me abandonou”. Então Jesus com seu olhar terno e amoroso olhou para esse homem e respondeu: “Veja novamente as pegadas, nos momentos mais difíceis da sua existência é verdade que só há duas pegadas na areia, mas repare que as pegadas são muito mais profundas. Na verdade nesses períodos de maior crise e sofrimento eu o carregava no colo”. A escolha é sua, andar só ou na companhia de Jesus. Alguns pensarão que isso talvez seja a projeção da figura paterna sobre o religioso, talvez seja, não sei, como já disse não tenho respostas. Mas, lembrando o pensamento de Blaise Pascal, prefiro conscientemente apostar nesse passo de fé, vivenciando uma experiência relacional com Deus em Jesus Cristo.


BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:
FRANZ, Marie-Louise von. Reflexos da alma. São Paulo: Cultrix / Pensamento
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. in Obras Completas de S.Freud, vol XIV (1914-1916). Rio de Janeiro: Imago.
______________. O mal-estar na civilização. in Obras Completas de S.Freud, vol. XXI (1927-1931). Rio de Janeiro: Imago.
______________. O futuro de uma ilusão. in Obras Completas de S. Freud, vol. XXI (1927-1931). Rio de Janeiro: Imago.
GOMBRICH, E.H. A História da arte. Rio de Janeiro: LTC Editora.
HOLLIS, James. A passagem do meio, da miséria ao significado da meia idade. São Paulo: Paulus.
_____________. Nesta jornada que chamamos vida, vivendo as questões. São Paulo: Paulus.
JUNG, C.G. Memórias, Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.
LEWIS, C. S. O problema do sofrimento. São Paulo: Editora Vida.
NOUWEN, Henri. Adam, o amado de Deus. São Paulo: Paulinas.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Martins Fontes.
ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
SANTOS Jr., Daniel. Sem direito de resposta: Lidando com as questões exegéticas referentes ao livro de Jó. Revista Fides Reformata XII, nº 1 (2007), p. 9 - 26.
SPROCCATI, Sandro (org.). Guia de História da arte. Lisboa: Editora Presença.
FILMES SUGERIDOS:
As Invasões Bárbaras. Canadá, 2003. Direção: Denys Arcand.
Divã. Brasil, 2009. Direção: José Alvarenga Jr.

RESENHA


Por Regis Augusto Domingues

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico, 21º edição. Zahar: Rio de Janeiro, 2007.


A Antropologia, principalmente na abordagem dos fenômenos culturais, tem se mostrado uma ferramenta importante para o trabalho teológico, tanto na formulação conceitual da teologia, quanto na práxis desses conceitos, principalmente quando tratamos da missiologia e a inserção dessa no contexto transcultural. E quando digo contexto transcultural penso tanto na vivência missionária em lugares e culturas distantes e bastante diferentes da nossa, como na missão feita nos púlpitos, praças e ruas no meio urbano, que pode se deparar, também, com uma infinita variedade cultural. Por isso, como um incentivo ao estudo e diálogo da Teologia com a Antropologia, quero com essa resenha despertar o interesse dos meus leitores pela abordagem cultural oferecida pela Antropologia e levar, aos que estudam a Teologia e fazem missão, a enveredarem-se no saboroso e enriquecedor diálogo interdisciplinar.



O livro de LARAIA é introdutório e, como todo bom trabalho acadêmico, não apresenta qualquer juízo de valor. O autor é professor titular da Universidade de Brasília e domina como ninguém o tema que se propõem a escrever, tanto que consegue sintetizar em poucas páginas um arcabouço teórico construído no decorrer de séculos por inúmeros pensadores e pesquisadores do campo da Antropologia.



A pequena brochura de LARAIA pretende traçar uma apresentação introdutória ao conceito antropológico de cultura num texto didático, claro e simples (p. 07). O tema é tratado no livro em duas partes. A primeira parte apresenta a herança teórica do conceito de cultura até os autores contemporâneos. A segunda parte aborda a influência que a cultura exerce no comportamento social e como produz, mesmo diante da constatação de unidade biológica, a diversidade nas sociedades humanas.



A primeira parte é iniciada com a discussão sobre as perspectivas do determinismo biológico como fator preponderante na formação e concepção da diversidade cultural. O autor apresenta razões que levam a conclusão de que essa perspectiva é equivocada, uma vez que, mesmo havendo diferenças determinadas biologicamente, como a de sexo por exemplo, a antropologia tem comprovado que atividades atribuídas à mulher em uma dada cultura podem ser atribuídas ao homem em outra (p. 19). Portanto, o comportamento de uma pessoa pode ser atribuído ao seu aprendizado, que o autor chama de um processo de endoculturação.



Na seqüência LARAIA aborda o pressuposto teórico do determinismo geográfico que considera os fatores ambientais como condição da diversidade cultural. Esse conceito é refutado pelo autor a partir das demonstrações de antropólogos como Boas, Wissler e Kroeber que apresentam as limitações do fator geográfico na formação da cultura, sendo que é possível encontrar uma diversidade cultural numa mesma localidade geográfica.



Os antecedentes históricos e o desenvolvimento do conceito de cultura são abordados na continuidade da primeira parte. Nomes como Locke, Turgot, Jean-Jacques Rousseau e Tylor são citados como formuladores iniciais desse conceito, concluindo, com uma citação de Geertz, que o grande número de definições contribuíram mais para a confusão do conceito do que para o seu esclarecimento, sendo necessário atualmente à antropologia delimitar e reconstruir o conceito para transformá-lo num instrumento teórico mais eficiente. Debatendo sobre algumas escolas antropológicas apresenta uma perspectiva do desenvolvimento histórico do conceito de cultura.



A origem da cultura e as teorias modernas sobre o tema são examinados nas últimas considerações da primeira parte do livro. São abordados alguns teóricos que defendem o desenvolvimento do cérebro e a habilidade manual como fatores de origem da cultura e outros, como Lévi-Strauss e White, que defendem a idéia de que a cultura surge na convenção de normas e na formulação simbólica. Utilizando o esquema elaborado pelo antropólogo contemporâneo Roger Keesing, o autor sintetiza os esforços de reconstrução do conceito de cultura nos estudos atuais da antropologia, concluindo, assim a primeira parte do livro.



Na segunda parte do livro LARAIA inicia discorrendo como a cultura condiciona a cosmovisão do homem em sociedade. Citando a importante antropóloga Ruth Benedict o autor deixa claro a proposta da segunda parte: “a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo” (p.67). São considerados nessa parte as questões de ordem moral, valores, comportamentos e posturas corporais como heranças culturais (p.68) e o conceito de etnocentrismo como fenômeno universal.



Na continuidade o autor aborda a maneira que a cultura opera dentro de uma lógica própria que somente pode ser entendida pela classificação, pela compreensão das categorias entendidas pela linguagem da própria cultura. Dessa maneira, pode-se entender como a cultura influencia os aspectos biológicos, como no caso do xamã que proporciona a cura de doenças, sejam reais ou imaginárias, quando do exercício da fé do doente sobre o remédio ou sobre o poder do xamã. E de como, mesmo havendo regras gerais ou etiquetas sociais necessárias para a convivência em sociedade, ninguém domina totalmente os elementos de sua cultura. Há diferenças na participação de cada pessoa na cultura, seja por fatores cronológicos ou meramente cultural.



O autor, por fim, concluí a segunda parte e termina sua explanação do conceito antropológico de cultura apontando o dinamismo cultural. Segundo as considerações do autor o sistema cultural está sempre em mudança (p.101) e o entendimento desse processo dinâmico é importante para amenizar o choque entre gerações e os preconceitos dentro de um mesmo sistema ou fora dele. LARAIA termina com uma expressão poética: “Este é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo do porvir” (p.101).
Depois da conclusão dois anexos ainda são acrescidos ao breve tratado de LARAIA como exemplos que contribuem para maior entendimento de todo o conceito de cultura discutido no decorrer do livro.



O livro de LARAIA parece cumprir ao seu objetivo iniciando o leitor nos princípios do conceito antropológico de cultura. LARAIA pode ser parabenizado por conseguir condensar, de maneira clara a discussão da complexidade do conceito de cultura nas várias escolas antropológicas e nos vários períodos históricos que essas se desenvolveram. O autor utiliza muitas citações durante o desenvolvimento do texto, isso, a princípio, pode tornar a leitura um pouco monótona, mas ao final pode ser percebida como uma excelente oportunidade de contato com os textos clássicos da antropologia cultural.



Apesar da complexidade do tema o livro de LARAIA deixa para o leitor alguns parâmetros para o entendimento do conceito e do modo como a diversidade cultural se expressa na vivência humana. A bibliografia ao final do livro pode ser considerada uma referência importante para o aprofundamento dos estudos sobre o tema.



Recomendo a leitura do livro a todos que queiram se iniciar no estudo da Antropologia Cultural e promover um diálogo entre esse campo do saber humano e a teologia, principalmente aos estudantes de missiologia e missionários.

O Verdadeiro Sentido do Natal

Por Regis Augusto Domingues

“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)”. Evangelho de S. Mateus 1:23
A proximidade do natal é acompanhada de grande euforia. Luzes, piscas, enfeites, árvores, Papai Noel, tudo nos envolvendo num clima de festa, compras, troca de presentes. Muitas vezes o natal é encarado como mais uma comemoração do calendário, outras vezes como o momento de manifestar um espírito solidário, um ato de caridade, uma demonstração de afeto. Sem dúvida essas coisas têm o seu valor e são até importantes numa época tão conturbada quanto a que vivemos. Sem dúvidas são brisas nesse deserto árido. Mas quando nos deparamos com os evangelhos, que retratam a vida de Jesus Cristo, não é possível ficar passível diante do fato que constitui o verdadeiro significado do natal.
O verdadeiro sentido do natal ofusca todas as festas, luzes, enfeites, caridades, pois ele anuncia o mais maravilhoso ato de amor: Deus revelando-se na própria condição humana.Todos os evangelhos relatam o acontecimento mais sublime da história humana: o nascimento do Salvador. A peculiaridade do evangelho de Mateus é que ele faz referência direta as promessas da vinda de um salvador expressas pelo profeta Isaías. Um paralelo entre esses dois textos das Sagradas Escrituras é a menção do Emanuel, o Deus conosco. O peso dessa palavra é que ela não só apresenta o nascimento do Salvador, como também, esclarece que o Salvador é o próprio Deus. Jesus é o Deus-filho, que veio ao mundo em forma humana, deixou sua condição de glória para, como perfeito homem e perfeito Deus, pagar o preço de morrer no lugar de cada um de nós para, assim, nos reconciliar com Deus. Essa foi a grande promessa de Deus em todo o Velho Testamento e cumprida em Jesus.
A nossa condição era de pecado, ou seja, de completo afastamento de Deus, de caminhada para a destruição, de completa enfermidade moral e espiritual, sem qualquer possibilidade de recuperação por conta própria. Sem temor de ser estigmatizado como antiquado ou conservador entendo, como grande parte de nossos ancestrais no Cristianismo, que Deus num ato e demonstração de amor (Rm 5:8) enviou seu Filho, Jesus, que prontamente se ofereceu para morrer em nosso lugar. Nos justificando, ou seja, aplacando a ira divina ao derramar de seu próprio sangue na cruz. Como escreve o profeta Isaías: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si...ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados....justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si...porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores, contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu” (Is 53). Jesus morreu a morte que nós merecíamos, mas a grande notícia não termina aí, pois Ele também venceu o poder da morte e do pecado que nos aprisionava, ressuscitando, nos estendendo a vida eterna, reafirmando a promessa que um dia voltará para a redenção completa da criação.Que no natal possamos celebrar com grande alegria a promessa do Emanuel, o Deus-filho conosco, Jesus Cristo, e rememorar toda a sua obra de salvação, que recebemos como favor imerecido.Que nesses momentos de festa os nossos pensamentos dirijam-se para a obra de redenção (resgate do pecador) e de reconciliação com Deus realizada por Jesus e festejemos a Ele com sincera adoração. Esse é um convite para celebrarmos juntos o verdadeiro sentido do Natal.
Soli Deo Gloria.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Metanóia: da Normopatia à Consciência de Cristo.


Por Regis Augusto Domingues

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”
Apóstolo S. Paulo, aos cristãos em Roma.


Parece-me que somos acostumados a formatações. Segundo já nos informava no início do século XX o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, nossos hábitos resultam de normas inconscientemente introjetadas. Essas normas resultam de um consenso coletivo e que determinam formas de viver, pensar, comer, etc. Mas nem todas as normas são positivas, pois, ao serem absorvidas “inadivertidamente” podem causar definhamento da identidade do sujeito, limitando seu real crescimento pessoal. As pessoas vivem com máscaras e enquadram suas mentes e emoções na parametrização coletiva, para serem aceitas, conquistarem status e uma pretensa felicidade. Mas que felicidade, sua ou dos outros? Uma real felicidade e realização ou ceder a uma pressão social?
Para exemplificar a questão utilizarei o campo das profissões, que promove grande angústia na vida de muitos, por envolver aspectos pessoais, sociais e econômicos.Cada época tem sua moda de profissões, em período recente as profissões mais valorizadas pelo mercado eram a medicina, o direito e a engenharia, hoje o quadro muda um pouco, essas profissões ainda têm seu fôlego, até porque estão inseridas no trato do dia-a-dia da vida das pessoas. Mas a tendência desloca-se atualmente para a área da administração, negócios e tecnologia. Há décadas passadas o médico era médico, o advogado era advogado e o engenheiro fazia prédios e projetava carros e motores, hoje o médico faz uma pós-graduação em administração para cuidar dos negócios de clínicas e hospitais, o advogado especializa-se em direto tributário, empresarial e internacional para cuidar dos interesses de empresas, consórcios e grandes fortunas. E o currículo acadêmico de engenharia voltou-se de disciplinas como a resistência de materiais, do cálculo diferencial e da teoria dos vetores para a liderança, o comportamento organizacional, a gestão de processos, a logística e a administração geral, com a nova sensação do momento: a engenharia de produção. E claro, não poderíamos esquecer que o profissional mais valorizado no mercado de trabalho, ou seja, aqueles com melhor remuneração, são os gestores e desenvolvedores da área de TI (tecnologia da informação). E num futuro próximo o foco nas profissões estará voltado para carreiras ligadas a biotecnologia, a engenharia biomédica, a nanotecnologia, a engenharia e gestão ambiental, a engenharia aero-espacial, a engenharia genética, a microbiologia, a robótica e a inteligência artificial (I.A.).

Em futuro próximo o cirurgião não precisará mais de auxiliares, instrumentistas e enfermeiros para realizar suas cirurgias, contará com o auxílio de máquinas de alta precisão em todo o procedimento cirúrgico. Nem mesmo o bisturi será necessário em procedimentos invasivos, pois contará com instrumentos ultra-sensíveis para isso, ou seja, o cirurgião não necessitará de tanta habilidade com as mãos para realizar seus procedimentos, antes terá que adquirir habilidade em operar máquinas que o ajudarão nisso. É o que vislumbra a engenharia biomédica. Já a engenharia genética surge com a promessa de cura para quase todos os males físicos com o avanço no estudo das células tronco, as células primárias do ser humano, através das quais há a possibilidade de reverter quadros graves de patologia, como no caso do câncer.A vocação, os talentos, as habilidades inatas não importam, o que prevalece é a demanda de mercado. Todos correm atrás de suprir uma dada demanda de mercado, esquecendo-se do clamor interior em realizar suas vocações, buscam sucesso profissional e grandes salários. Só que temos um problema, a demanda tem limite e essa corrida acaba gerando um excesso de contingente nas profissões da moda. E isso acarreta, inevitavelmente, a diminuição nas oportunidades de colocação profissional e, conseqüentemente, uma redução na oferta salarial. O tão sonhado sucesso profissional e garantia de bons ganhos salariais, em prejuízo da vocação, pode ser frustrante. Atender ao apelo do mercado resultará numa normalidade patológica. O conjunto social conclama que é normal seguir uma profissão do momento, mas e o coração, e a consciência interior que tentamos abafar, silenciar?

Adoecemos fisicamente, mentalmente e espiritualmente como pessoas normais. A sociedade, consensualmente, adoece. Haverá aqueles que se sentirão vocacionados ou chamados a ocupar as posições das profissões da moda. Mas onde estarão os filósofos, os historiadores, os poetas, os contadores de história, os atores de teatro popular, os teólogos, os artistas plásticos, as bailarinas, os músicos? Serão poucos e continuarão há margem, batalhando exaustivamente para sobreviverem? È claro que atualmente observamos que alguns desses profissionais, ligados a filosofia, ao teatro, a música, têm adquirido destaque no mundo corporativo, mas trata-se de uma acanhada minoria. Há uma necessidade de maior reflexão e maior autoconhecimento no meio corporativo, e penso eu, que esse movimento surge como reflexo, alerta e resposta ao inevitável esgotamento da mentalidade pragmática e utilitarista que governam esse meio. Mas esses são poucos aventureiros que tentam desbravar a densa floresta de oportunidades voltadas as profissões da moda. Espero que não seja apenas mais um modismo, como tantos outros que já se apossaram dos executivos e que rapidamente foram descartados. Nesse contexto de exaltação de determinados meios de vida e formas de viver em detrimento de outros, talvez até mais virtuosos (sem receio de formar qualquer juízo de valor), surge a normopatia ou normose.São os modelos prontos, as formatações, a moda do momento, o pacote fechado de idéias, as receitas, os passos eficazes para isso ou aquilo, o emolduramento, a robotização de um ser humano programável. Contexto esse que tende a agravar-se tendo alguns pensadores que vislumbram o surgimento de uma sociedade pós-humana. Sociedade essa totalmente pautada na técnica e na tecnologia, desprovida de valores propriamente humanos e, conseqüentemente, vazia de princípios cristão como o amor e a misericórdia.A normopatia, segundo preceitos de estudos atuais da Psicanálise, ou a normose, conforme preferem nomear os adeptos da Psicologia Transpessoal, ou ainda, como indicam alguns psiquiatras, um fenômeno neropsíquico de super-adaptação humana, são classificações de um conceito recentemente cunhado.A normopatia, como prefiro denominar, é definida como um conjunto de padrões e conceitos, como um modus vivendi, aceito em consenso, ou em maioria, por uma sociedade e que causam, individual ou coletivamente, dor emocional, culpa, exclusão, doença, alienação e morte. São os valores e comportamentos considerados normais por todos ou pela maioria, que, de maneira inconsciente, provoca o sofrimento, a perda de identidade, a formatação. A normopatia é a normalidade de natureza patológica. É a vivência que resulta da osmose do consenso social, que ocorre de maneira automática, sem que se tenha consciência. A normopatia é gerada a partir da introjeção iniciada na infância, principalmente no seio familiar, onde somos ensinados a corresponder a imagem que os outros têm de nós e não o que gostaríamos de ser. Na infância não somos ensinados a refletir, mesmo de forma rudimentar, sobre nossos atos, mas apenas aprendemos a receber e acatar ordens, pois, essa é a regra.
Existem, basicamente, duas formas de educar crianças, uma é estabelecendo proibições e limites de comportamento à criança, seja para a preservação da mesma, seja para aplacar as frustrações dos pais, seja como uma mera repetição de modelo, mas sem qualquer explicação de motivos, lembrando que motivos nem sempre são claros para as crianças. Associado a isso um excessivo cuidado que não permiti à criança ter nenhuma autonomia. A segunda é estabelecendo proibições e limites que visão a real preservação e integridade da criança, sempre acompanhados de explicações, levando a criança a entender os motivos. Informando que um dia ela poderá realizar determinadas tarefas e optar por determinados comportamentos por adquirir capacidade de julgamento para tanto. Essa comunicação do nosso entendimento à criança é o que proporciona o que eu chamo de reflexão rudimentar. Associado com essa informação, permitir que a criança corra alguns riscos e que tenha, portanto, certa autonomia vigiada.O primeiro método é tolhedor, cria adultos mental e emocionalmente dependentes, inseguros, inexperientes na observação e descobrimento do mundo, altamente sugestivos e facilmente formatáveis. São vítimas fatáis da normopatia.O segundo método é estimulador, cria adultos mental e emocionalmente independentes, mais seguros, reflexivos, prontos a interagir com o mundo, sem perder sua identidade. Esse adulto dificilmente aceita passivamente padrões pré estabelecidos. Geralmente são pessoas esquisitas que buscam a razão das coisas. E certa esquisitice inteligente é necessária para não sermos fagocitados pela normalidade enferma que nos cerca.

Além de todo o peso social o campo religioso é um terreno fértil para o cultivo da normopatia. Uma prova disso é o esvaziamento do conceito de conversão, principalmente num meio que me interessa em particular, o evangélico. Conversão durante séculos foi associado ao arrependimento, a mudança de sentido na vida religiosa, a regeneração interna do convertido. Hoje o conceito de conversão não faz muito sentido. Quando as pessoas dentro da igreja cristã referem-se a outras de fora dizem que essas precisam se converter. Mas se converter a que? A um dado grupo ou comunidade que age de determinada maneira e buscam determinados interesses, em alguns casos claramente apoiados na lógica do mercado de consumo. Geralmente o termo “converter” está, atualmente, relacionado a questões de costumes, padrões morais, aspectos peculiares de determinado grupo. O conceito de regeneração monérgica foi abandonado, por isso, entendo que o melhor termo a ser usado é o de redenção. Primeiro porque ressalta um movimento que parte da iniciativa de Deus e não da nossa. Segundo, porque resulta num resgate não para a forma de um grupo, mas para Deus, que aprecia a diversidade, pois, criou todas as coisas com diversidade.
Jesus Cristo, o homem de Nazaré que caminhava pela Galiléia e dizia ser filho de Deus, subverteu todas as estruturas e normas do seu tempo. Utilize a hermenêutica que desejar na interpretação dos Evangelhos, o que não se pode negar, pelo testemunho ali descrito, é que Jesus Cristo marcou aqueles que o viram e ouviram com atitudes que quebraram com padrões, sejam religiosos, econômicos, socioculturais (costumes principalmente) e políticos. Metanóia é a palavra transliterada do grego utilizado pelos escritores do Novo Testamento e pretende exprimir a idéia de uma mudança radical de sentido, retornar 180º de uma direção a outra. Metanóia, por vezes traduzido como arrependimento, é esse processo de mudança radical de direção por meio do toque de Cristo. Libertação de normatizações escravizantes, de regimes opressores, das ideologias incapacitadoras, geradoras de enquadramentos enfermantes. Metanóia essa é a idéia, uma transformação profunda e radical da normalidade e da homogeneidade. Uma transformação de nossas idéias, conceitos e normas mortificantes pela renovação de nossas mentes pelo testemunho e toque de Jesus Cristo. Um verdadeiro abalo sísmico em nossas formas tão quadráticas de ser e pensar. É preciso despertar do conformismo desse mundo regido por lógicas e razões desumanas e aviltantes. Quem sabe quando abandonarmos essa “vida de gado” consigamos atender ao chamado (vocação) de Deus que tantas vezes pulsa em nosso interior, e aí vivenciar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, que se traduzirá, para lembrar o conceito agostiniano, na verdadeira satisfação e felicidade humana

A Ação Libertadora do Servir


Por Regis Augusto Domingues






Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: Se alguém quer ser o primeiro, deve ficar em último lugar e servir a todos. (S. Marcos 9:35)





Que o amor faça com que vocês sirvam uns aos outros (Gálatas 5:13c)



Provavelmente um dos maiores conflitos da alma humana repouse no conturbado antagonismo entre o Ser e o Ter (Erich Fromm), entre o conteúdo e a forma. Principalmente na sociedade hodierna, movida pelo poder econômico e abertamente consumista. Onde a pessoa é levada a crer que seu valor está ancorado no que possui, no poder que exerce e no montante do que consome. Cultura essa que identifica, ou melhor, estigmatiza a pessoa pelo que veste, pelo carro que tem, pelo lugar que reside, pela conta bancária. Uma verdadeira coisificação da pessoa humana.



Nesse cenário sócio-cultural, onde predominam as relações de desigualdade e de poder, onde uns oprimem outros por meio do controle disciplinar (Foucault), do domínio político, econômico e ideológico (Marx), somos incentivados a abandonar o Ser, a essência relacional inerente a pessoa humana, para nos moldarmos as formas plásticas e artificiais do Ter, a ilusão construída a partir da posse, do poder e do status. Aprisionada pelos aspectos superficiais e efêmeros do Ter a alma enferma lança-se num espiral de ilusões. Seus principais sintomas são o isolamento, a competitividade, o egoísmo. Alimentada por ilusões a alma fragmenta-se, perde a integridade e a existência acaba resumindo-se num retalho de coisas que se tenta Ter. Assim como as coisas, nos tornamos descartáveis.



Nesse estado de transe inspirado pela ilusão somos tentados a nos ocuparmos exclusivamente das coisas terrenas e passageiras e abandonamos o que é perene. Entramos em conflitos e competições, lutamos e guerreamos para possuir. Haverá algum valor nisso? Aqui, então, invoco o testemunho de S.Mateus em seu evangelho: O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?(Mt 16:26).



Um agravante a toda a essa situação é que o próprio campo religioso encontra-se entregue as seduções do Ter. O local onde a alma humana deveria encontrar algum conforto, esperança e renovação de forças, acabou por se deixar contaminar pela moléstia do egoísmo consumista. As chamadas religiões de mercado têm apregoado o mesmo espírito de nossa época, tendo o seu discurso e prática fortemente dominados por relações utilitaristas, pelo poder ditatorial e ideológico pretensamente legitimado pelo divino, pelo incentivo na obtenção de lucros e vantagens a partir de uma barganha com Deus e a qualquer custo. As pessoas correm atrás de mensagens triunfalistas repletas de receitas de sucesso, enquanto líderes religiosos se utilizam das pessoas e seus recursos para viabilizarem seus ministérios.
O espectro do Ter ronda e influencia o campo religioso, estando o próprio cristianismo comprometido. Infelizmente, quando observo a igreja cristã pela perspectiva teológica e histórica concluo que muitos que elevam o estandarte de uma pretensa mensagem cristã não passam de uma grotesca caricatura do evangelho. Onde a pessoa humana deveria encontrar a redenção, ser valorizada e cuidada como obra prima de Deus, tem encontrado o oposto: um discurso coisificante e alienante.



É necessário despertar! Cuidar para que nosso coração não esteja aprisionado pelo Ter, atentar para que nosso tempo e talentos não estejam dominados pela intenção exclusiva de possuir e dominar. E é aqui que nos deparamos com a figura magistral que nos desperta desse sono profundo.



A mensagem e a vida de Jesus Cristo quebram com a estrutura social sustentada pelo Ter e suas implicações, ao anunciar o Reino de Deus e apresentar, limitado ao contexto que discutimos, a transformação das relações humanas injustas. Segundo o testemunho do evangelista S. Marcos, Jesus vinha pelo caminho falando aos discípulos sobre sua morte e ressurreição. Mas os discípulos não entendiam o que o Mestre falava, estavam entretidos numa discussão sobre quem seria o primeiro no reino. Estavam amarrados aos laços do Ter prestígio, do Ter poder, do Ter controle. Como poderia Jesus estar falando de morte e ressurreição, se eles aguardavam um Messias com grande poder político, um Rei triunfante que libertaria a nação do domínio Romano e voltaria a colocar Israel entre as maiores nações do mundo antigo? Jesus confronta essa visão triunfalista e dominadora ressaltando uma característica essencial dos que pertencem ao Reino: o servir.



Essa é a característica fundamental e libertadora do Reino de Deus: servir, doar-se ao outro. A mensagem do Evangelho é uma mensagem de liberdade profunda e integral, pois liberta do egoísmo e da independência, proporcionando uma entrega radical a Cristo, ao outro, no amor-serviço, conforme o apóstolo S. Paulo nos inspira na epístola aos Gálatas. A mensagem do Evangelho nos liberta para um novo relacionamento com o Criador e a criação.Servir, doar-se, ser você mesmo, com os dons e talentos atribuídos por Deus, em benefício do próximo. O Servo é aquele que se doa, é aquele que perdoa, é aquele que ama, é aquele que caminha junto do desamparado, do aflito, do pobre, do enfermo, do pecador.



É na ação libertadora do servir que se quebram as cadeias do egoísmo, do individualismo, das relações de poder, das estruturas injustas, enfim do mal estrutural (Sponheim), e constroem-se pontes de relacionamentos, de amor, de comunhão e de preservação da vida.
Experimentamos do próprio Cristo o poder transformador do dar-se, quando Ele vindo como servo em forma humana, abriu mão da sua condição de Deus, vivenciou todas as mazelas humanas, sofreu os nossos sofrimentos, morreu em nosso favor e ressuscitou nos dando a vida. Alienados de Deus estávamos em estado de miséria, Jesus como servo, na unidade com o Pai e o Espírito Santo, compartilhou conosco da sua vida. Ao servir Cristo nos resgatou da morte para a vida e da destruição e do caos vez nova todas as coisas.
Quando nos conscientizamos da vida de Cristo em nós, dos dons de Deus em nós e de quem somos, aprendemos, então, a sermos servos e a construirmos novas relações, baseados no essencial da vida: o Amor. Para tanto, o servo necessita de uma mente renovada, destituída de todos os preceitos efêmeros da vida. Mente sem preconceitos, sem legalismos, sem moralismos, sem discriminações, mas inclusiva. O servo precisa estar apenas pronto a servir com o mesmo amor de Cristo.



O servo não busca seus próprios interesses, mas o dos outros, o servo não busca a fama e nem a visibilidade pública, mas o anonimato nas pequenas e grandes ações. O servo busca amar incondicionalmente e ter um coração compassivo como do Mestre. O servo é sal e luz. Influencia com seus atos e difundi esperança com suas palavras. É-nos absolutamente necessária essa entrega ao serviço, ao doar-se sem restrições, ao aspecto diaconal da vida cristã. Mas cabe aqui uma advertência sincera: nem sempre servir será gratificante.



Ao servir estamos nos expondo aos desapontamentos, as frustrações, aos erros, as perseguições, as rejeições, as dificuldades. Mas lembremos da parábola nos evangelhos quando o Senhor ensina: Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Venham, vocês que são abençoados pelo meu Pai! Venham e recebam o Reino que o meu Pai preparou para vocês desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água. Era estrangeiro, e me receberam na sua casa. Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim. Estava na cadeia, e foram me visitar. Então os bons perguntarão: Senhor, quando foi que o vimos com fome e lhe demos comida ou com sede e lhe demos água? Quando foi que vimos o senhor com estrangeiro e o recebemos na nossa casa ou sem roupa e o vestimos? Quando foi que vimos o senhor doente ou na cadeia e fomos visitá-lo? Aí o Rei responderá: Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quando vocês fizeram isso ao mais humilde de meus irmãos, foi a mim que fizeram. (Mt 25:34-40).Quando servimos estamos nos lançando aos braços afetuosos e ternos de nosso Senhor.

EM BUSCA DE SENTIDO

por Regis Augusto Domingues

"Mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento... Por isso, a vida começou a não valer nada para mim; ela só me havia trazido aborrecimentos. Tudo havia sido ilusão; eu apenas havia corrido atrás do vento." Eclesiastes 2: 11 e 17


Certa vez, uma pessoa desanimada e achando a vida empalidecida ficou por alguns minutos observando os livros que compõem minha biblioteca, passando os olhos de prateleira por prateleira perguntou-me: Para que e porque tantos livros? Pensei por um instante. Observei a gama de temas tratados naqueles livros e não pude deixar de responder o que refletia minha própria alma: Essa quantidade de livros e mais a inúmera quantidade de produções intelectuais e livros que são publicadas diariamente, é nada mais nada menos que o ser humano em busca de sentido. São homens e mulheres em busca de significado para a vida. Queremos respostas para contentar os desgostos de nossa frágil existência.
O psicanalista norte-americano Rollo May, um dos expoentes da Psicologia Existencialista, escreveu: “Pode surpreender que eu diga, baseado em minha prática profissional, assim como na de meus colegas psicólogos e psiquiatras, que o problema fundamental do homem, em meados do século XX, é o vazio.” (O homem à procura de si mesmo, Ed. Vozes). Também Carl Gustav Jung, pai da Psicologia Analítica, em um de seus escritos faz a seguinte citação: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido em suas vidas vazias”. Parece-me que há uma insatisfação geral em nosso coração quanto a nossa existência. Por mais que corramos atrás de algo nesse mundo, por mais valoroso que seja, é, na reflexão do escritor do livro de Eclesiastes, como correr atrás do vento.Especialmente neste tempo em que somos privados de valores, onde o absoluto se perde nas entranhas do relativismo, onde “tudo o que é sólido se desmancha no ar” (Karl Marx), onde há um “desencantamento do mundo” (Max Weber), onde o máximo que se tem de absoluto é a dissecação do cadáver de Deus pela Teologia. Parece que tudo se perde. É como se tentássemos segurar um punhado de areia que escorre por entre os dedos da mão. Nada permanece, tudo passa rapidamente, como o vento. E aqui é necessário que se abra um parêntese na fluidez do texto para um esclarecimento: não nego ou sou contrário há uma realidade relativa, isso seria insensatez, esquizofrenia, alienação.
O relativismo, e sua inevitável conseqüência, a pluralidade, no que tange a vivência humana, é um conceito mais do que claro, e compreendo que também positivo, no pensamento atual. Entendo que somos seres relativos e somente Deus é absoluto, e que, portanto, teremos sempre uma visão parcial do absoluto. O que critico é a tentativa reducionista de relativizar o absoluto, e é isso que chamo de dissecar o cadáver de Deus. Jogar tudo no campo do relativismo em detrimento do valor absoluto afasta as pessoas do essencial que é Deus. Relativas são nossas idéias, nossas formulações teóricas, o “objeto” de nossa conceituação é absoluto. Somos seres relativos e sempre teremos visões relativas ou parciais de Deus, mas o absoluto continua existindo independente do relativo. Deus em sua condição de absolutividade continua presente e passível de relacionamento, mesmo em nossa condição de relatividade. Não é necessária uma compreensão plena de Deus para conviver com Ele, em nossa visão relativa podemos nos relacionar com o absoluto, que por fim é, e continuará sendo, mistério para as nossas mentes relativas e, portanto, finitas. Não há o que temer, não é preciso relativizar tudo para conviver bem com o meu próximo, posso manter valores absolutos (absolutos por encontrarem sua fonte no absoluto, mesmo sendo, na verdade, valores parciais) que para mim são preciosos, e o mesmo pode ocorrer com o meu próximo, sem que haja conflito. Porque o que importa é o respeito mútuo, o diálogo e o amor. Afinal: “agora, vemos como em espelho, obscuramente, então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (Apóstolo S. Paulo – 1ª Carta aos Coríntios 13:12 e 13).
A humanidade encontra-se perdida e sem sentido. Buscamos a satisfação de prazeres no dinheiro, no sexo, no conhecimento, mas tudo é enfado e correr atrás do vendo. Trabalhamos exaustivamente. Cheguei há trabalhar 12 horas por dia em detrimento de minha saúde, da família, dos amigos e da participação na igreja. E o que isso resultou? Aborrecimento, foi como correr atrás do vento. Vejo muitos que procuram correr para acumular dinheiro, criar fortuna. E o que resulta disso? Vidas destroçadas, famílias arruinadas, relacionamentos partidos. É como correr atrás do vento. Testemunhei pastores que se dedicaram imperiosamente aos seus ministérios de sucesso. E o que resultou disso? Esposas amarguradas e frustradas, filhos desorientados, pessoas feridas. É como correr atrás do vento. Muitas pessoas apostam suas vidas nas mais variadas atividades e quando chega à velhice o que resulta tudo isso? Meu pai, já falecido, teve uma rica experiência de vida. Quando pequeno seus olhos presenciaram a revolução constitucionalista de 1932 e seu poucos comentados horrores. Integrou na década de 40 o efetivo do exército brasileiro em plena II Guerra Mundial. Casou e criou seis filhos. Bom esposo, bom pai. Gostava de ler muito, foi um homem inteligente, prático e participativo junto à comunidade. Teve uma história de vida no mínimo interessante, mas quando completava 78 anos de idade, e suas condições físicas já se encontravam debilitadas ele confessou: “É muito triste chegar a certa idade e ver-se como um inútil”. Em que resultou toda uma vida? Sentir-se inútil ao final. É como correr atrás do vento.
Nossa vida pode ser riquíssima e proveitosa, desde que achemos o propósito e o sentido para tanto.Corremos, corremos, corremos... Como se nossa alma não se aquietasse com nada. Seja qual for o êxtase pelo qual passemos parece que ao fim algo está faltando. O vazio permanece lá porque esquecemos do essencial. Somente Deus dará sentido ao prazer, somente Deus dará sentido ao trabalho, somente Deus dará sentido aos nossos relacionamentos, somente Deus dará sentido à nossa existência. Prazer pelo prazer, destituído de Deus, é pleno desgosto e vazio.O que nos rouba o prazer, a satisfação, a alegria de viver e nos lança num abismo de frustrações é esta ausência de significado, que somente pode ser dado por Deus. Viver a vida como seres autômatos numa megamáquina (Erich Fromm), ou seja, viver numa formatação social onde os membros da sociedade são reduzidos a meras peças numa grande engrenagem é como encenar uma tragédia lúgubre da existência, algo enfadonho e morto. Nada transformar-se-á em vida se não houver uma real experiência no encontro de sentido na e para a existência. E esse sentido somente pode ser encontrado em Deus. Como reflete Santo Agostinho (Bispo de Hipona, 354 – 430) em suas Confissões: “Senti e experimentei não ser para admirar que o pão, tão saboroso ao paladar saudável, seja enjoativo ao paladar enfermo, e que a luz, amável aos olhos límpidos, seja odiosa aos olhos doentes”. Paladar enfermo e olhos doentes, ou seja, a existência longe de Deus. Santo Agostinho sintetiza no início de suas Confissões a angustia existencial pela qual passou, orando a Deus: “Criastes-nos para Vós e nosso coração vive inquieto, enquanto não repousas em Vós”.
Quero te convidar a encontrar sentido. Quero te convidar a uma experiência de fé, ou seja, a responder a iniciativa de Deus em oferecer o seu amor a nós. Meu convite é para uma experiência de fé que se traduz num relacionamento de confiança e compromisso com Deus. Voltar-se para os propósitos de Deus em Cristo Jesus. Repousar em Deus e encontrar nEle sentido. Libertar-se do cativeiro do vazio para a plenitude da esperança. Talvez fervilhem muitas dúvidas, mas isso não é motivo de preocupação, pois, creio que muitas vezes é no campo árido da dúvida que floresce a fé. O importante é não ter medo, mas confiar e repousar o coração em Deus.
“Já o meu coração estava livre de torturantes cuidados, de ambição, de ganhos, e de se resolver e esfregar na sarna das paixões. Entretinha-me em conversa convosco, minha Claridade, minha Riqueza, minha Salvação, Senhor, me Deus.”(Santo Agostinho, Confissões)