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quarta-feira, 26 de março de 2014

Simplesmente um Encontro

O Retorno do Filho Pródigo, Rembrandt -  tela em óleo, cerca de 1662
No começo me ensinaram que era necessário buscar a Deus. Então, imaginava se Deus seria um ser inacessível, distante, muitas vezes até indiferente aos nossos esforços em se achegar à Ele. Depois compreendi que era Deus quem nos buscava. Mas aí pensei que, então, éramos nós que negligenciávamos Deus e que nós seríamos a chave dessa relação. Com o tempo experimentei a verdade desse relacionamento. Hoje eu sei que tudo se trata de um ENCONTRO, uma efusão de amor que parte de Deus em direção a mim e de mim em direção a Deus. Um encontro de forte integração, um reencontro na verdade. Como daquele que partiu um dia e hoje volta para a alegria daquele que esperava. Assim como Jesus nos contou na parábola do filho pródigo: quando o filho, retornando ao lar, despontou no horizonte, o pai foi ao seu encontro.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Espiritualidade e Transformação




A impermanência é um interessante princípio do Budismo. Esse princípio básico do Budismo considera que nada é permanente, tudo está em constante transformação. E esse conceito encontra um paralelo no princípio dinâmico do Cristianismo que podemos denominar de inconformismo, como expressa o apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Esse inconformismo implica numa mudança constante de atitude, que ao transformar a pessoa, também altera a realidade, transformando as circunstâncias. Tanto a impermanência quanto o inconformismo levam necessariamente ao ato de transformação dinâmica e constante. Uma transformação iniciada em nós e refletida no mundo por ações que promovem mudanças. E isso é bastante positivo. Tanto do ponto de vista de aprimoramento pessoal e do mundo, quanto da qualidade e da significação da vida. Em outras palavras esses princípios dinâmicos de espiritualidade são promotores da saúde integral de qualquer pessoa que decide abraça-los.
Digo isso porque há um conceito psicanalítico fundamental no pensamento de Bion denominado “invariância”. Esse termo foi adotado por Bion a partir de um conceito emprestado da matemática e da física que definem a propriedade de uma dada grandeza que jamais sofre mudanças, permanece sem qualquer variação independente das circunstâncias. Bion utiliza esse termo para determinar um tipo de pensar que não varia e permanece num estado congelado. Esse tipo de pensar que não apresenta variações é um modo de funcionamento psíquico patológico e, portanto, gerador de sofrimento. Assumir um estado de transformação constante, mesmo que algumas vezes angustiante para o Ego, é uma atitude salutar para a mente e para o espírito. Estar numa atitude de transformação é algo dinâmico que nos leva sempre ao novo, liberta da alienação e do autoexílio. Abrindo possibilidades, oportunidades e, o mais importante, o relacionamento com o outro.
Na tradição religiosa a transformação passa necessariamente pela espiritualidade, pelo cuidado e aprimoramento da alma em relação ao divino/sagrado. Por sua vez a espiritualidade depende de uma vida emocionalmente saudável. Nós somos seres integrais e uma coisa não pode estar dissociada da outra. Quando a vivência espiritual se dissocia da emocional pode-se geral o que no pensamento psicanalítico de Winnicott denomina-se “falso Self”, uma estrutura psíquica de caráter psicótico que tenta ‘enganar’ com falsas mudanças. Esse modo de funcionamento psíquico perde o equilíbrio com o tempo e desestabiliza o sujeito, causando a regressão ao estado inicial de congelamento.
Assumir que devemos estar em constante transformação, como sujeitos integrais (corpo, mente/coração e alma), nos possibilita caminhar pela estrada do amadurecimento, da integração do que almejamos ser com o que somos agora. Nada mais, nada menos do que Jung conceituou como individuação. E para medirmos se estamos no caminho certo deixo uma dica: o grau de espiritualidade é proporcional à sensibilidade que se tem para com a vida e para com o outro. A sensibilidade é um termômetro que demarca se estamos ou não nesse processo de transformação.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Mensagem Enviada aos Oblatos Anglicanos de São Bento

Advento de 2013. A.D.

Queridos Prior e irmãos,

PAX!

É com alegria, esperanças e com um espírito disposto ao serviço do Senhor que acolho as palavras de nosso Prior e também deixo-vos uma mensagem de esperança.

Observamos em nosso tempo dias contraditórios e conflitantes. Por um lado temos um avivamento da fé e da espiritualidade em todos os âmbitos da experiência religiosa, seja cristã, seja de outras crenças. Para mim expressam as grandes oportunidades de um mundo plural, cabe-nos trabalhar para criarmos pontes e convergências de modo a transformarmos o nosso contexto e gerarmos um mundo melhor. Por outro lado, não deixamos de testemunhar diariamente a injustiça, a violência, o medo, a angústia, a atitude predatório, enfim, não deixamos de presenciar a destrutividade do ser humano. Mais do que qualquer outra coisa é o momento de vivenciarmos em nós mesmo, em nossas atitudes e ações, o mistério da encarnação. Precisamos aproveitar esse tempo de advento e natal para abandonarmos nossas velhas maneiras de testemunhar o evangelho e assumirmos nosso compromisso de discípulos, que uma vez transformados pela ação do Espírito Santo, que cria e recria, possamos transformar o mundo que nos cerca, pois, é a partir de nós que Deus, em Cristo, faz novas todas as coisas. E esse é o sentido teológico do advento e do natal.

É tempo de resgatarmos nossos sonhos, sonharmos os sonhos de Deus e partirmos para uma mudança profunda, inicialmente em nós mesmos e, consequentemente, no mundo em que vivemos. Que possamos fazer esse exercício de reflexão para que iniciemos esse novo ano litúrgico na perspectiva de que Deus fez, faz e fará novas todas as coisas, contínua e irrestritamente, na habitação do Cristo em meio as condições próprias da nossa humanidade. Ao buscarmos fazer a diferença nesse mundo por intermédio da encarnação do evangelho em nosso viver, estaremos transformando as circunstâncias pelo poder da presença de Cristo, o Emanuel, Deus conosco. Assim, então, brilharemos como luz no mundo, sem necessidade de holofotes, mas na simplicidade do amor, da compaixão e da humildade. Como oblatos nosso critério de avaliação própria, do próximo e do mundo em geral deve ser a sensibilidade, o olhar misericordioso e o amor, buscando considerar os outro sempre superiores a nós mesmos. Nisso estará o nosso poder de mudança, nessa aparente fraqueza manifesta-se o poder de Deus, encarnado em nossa existência. Nosso papel no mundo deve refletir uma vida de serviço, numa atitude de disponibilidade, uma atitude de sensibilidade diante da dor e da alegria alheia e, sobre tudo, do amor que se traduz na busca do bem maior para o outro. É o momento de uma revolução, a revolução do amor. O amor com o qual o próprio Senhor nos amou um dia, quando ainda andávamos cegos pelos caminhos de destrutividade. É momento de darmos espaço ao Espírito Santo para criar e recriar, a partir de nós, um mundo novo, onde não haverá mais dor, nem pranto, mas onde Deus enxugará dos rostos todas as lágrimas.

Aproveito para recomendar como leitura, para edificação e crescimento, dois livros: 'O Discípulo Radical' (Ed. Ultimato), do saudoso reverendo anglicano John Stott; e a encíclica pontifícia do Papa Francisco 'Evangelii Gaudium' (Ed. Paulus/Loyola). O primeiro é a última mensagem de Stott antes de partir, e a segunda é a primeira mensagem do pontífice em seu encargo, mas, ao meu ver, esses dois escritos parecem se dar as mãos para lançar uma forte luz sobre as necessidades prementes do futuro que se coloca à nossa frente.

Minha oração é para que os oblatos de nossa congregação, assim como toda a família beneditina, viva o evangelho de forma plena, encarnando o próprio Cristo em meio a realidade humana. Assim, veremos mudanças e não serão mais necessárias palavras.


Permaneçam na graça de NSJC!


Afetuoso e encorajador abraço,

Rev. Regis Domingues, osb - Decano


"Oração e Trabalho"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Discurso de Formatura – Universidade Mackenzie 2012




Por Regis Augusto Domingues
Turma Paul Tillich de Teologia – 17/08/2012

Boa tarde a todos!

Bem, como dentro de determinadas convenções e ideologias sou muitas vezes considerado um subversivo, então, para não perder a fama, inicio minha fala subvertendo a ordem de cumprimentos e aproveito para integrar a esses agradecimentos e felicitações.

Quero cumprimentar primeiramente a todos os familiares e amigos: que durante tanto tempo tiveram que se acostumar com nossas ausências. Foram tantas noites dedicas aos estudos que nos obrigavam a chegar tarde da noite em casa, prejudicando o convívio familiar mais intenso, ou recusar aquele convite para um bate-papo com os amigos. Fora os finais de semana e feriados quando nos debruçávamos sobre os livros.  Tantas vezes deixamos nossos lugares vazios à mesa do jantar. Quantas vezes suprimimos tempo da atenção devida aos filhos para cumprirmos as exigências do curso. Quantas vezes a esposa ou o esposo, namorada ou namorado, ouviram as lamentações e as dificuldades que enfrentávamos no curso e quando pensávamos em desistir nos ofereceram palavras de incentivo e ânimo.  Quantas vezes deixamos de partilhas boas conversas e experiências com amigos e familiares.

Por tudo isso, pelo reconhecimento de tudo que representam para nós, esse momento é dedicado a vocês: familiares e amigos.  Vocês são as pessoas mais importantes nesse rito acadêmico. Sem vocês não teríamos chegado até aqui.

Cumprimento aos meus colegas de turma pela vitória! Chegamos até aqui e conquistamos mais uma etapa da vida.
E finalmente gostaria de cumprimentar a mesa na pessoa do Prof. Dr. Edson Pereira Lopes e estender minhas estimas e considerações ao nosso Patrono – Prof. José Roberto, nossa Paraninfa - Prof. Lídice e nosso Homenageado – Prof. Lindberg que nos acompanharam durante toda a nossa caminhada como alunos de Teologia.

Bem meus queridos,

Há um texto do poeta Fernando Pessoa que diz o seguinte:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado, à margem de nós mesmos”.

Num primeiro momento esse pensamento de Pessoa pode refletir a minha e a sua individualidade, mas quando leio esse texto penso muitas vezes na própria Teologia.

Então me arriscaria em parafrasear o poeta da seguinte maneira:

Há um tempo em que é preciso abandonar as velhas e usadas formas de pensar a Teologia, que já tem a forma de um corpo dogmático e fechado, e esquecer os caminhos com os quais nos acostumamos e que nos levam sempre aos mesmos pensamentos. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado à margem do propósito de Deus.

Às vezes tenho a impressão que os teólogos andam pela sociedade, pelo mundo, de olhos vendados distribuindo discursos que mais parecem velhas lições tiradas de baús encerrados nos séculos passados e tentam responder a perguntas que ninguém mais faz.

Por isso, a Teologia deve se desvencilhar das formas quadráticas de pensamento e da rigidez dogmática, sem, contudo, cair nas armadilhas do cientificismo fragmentário do nosso tempo, alicerçado nos princípios cartesianos e positivistas. Para tanto, a Teologia deve optar por um "desentrincheiramento" formador e por uma “heresia metodológica”, para mencionar termos do acadêmico de Harvard Roberto Mangabeira Unger.

É claro que a Teologia, diferente das demais áreas do conhecimento, não parte de constatações empíricas ou de objetos de estudos concretos e bem definidos em laboratório, ao contrário, a Teologia cristã ocidental, parte do que chamamos de revelação. Por definição o objeto de estudos da Teologia não é Deus, como comumente se possa pensar, mas a revelação desse Deus que se apresentou de diversas formas para uma comunidade de fé. Essa comunidade de fé iniciou uma tradição oral acerca do que Deus representava em sua vivência comunitária e, por fim, no decorrer de séculos, essa comunidade de fé constituiu um conjunto de textos que hoje é conhecido como Sagradas Escrituras. O objeto de estudos da Teologia é, portanto, a Bíblia, esse conjunto de sabedoria milenar referendada pelo tempo. Não é papel da Teologia preocupar-se com a mera concepção etérea e metafísica da vida, até porque seu objeto de estudo desenvolveu-se a partir da experiência humana comunitária com o transcendente. O papel da Teologia é, antes, promover um conjunto de valores que influenciem diretamente no ‘destino’ da humanidade. O papel da Teologia é integrar na vida humana uma relação de valores que influenciem positivamente a forma de pensar e agir de pessoas “de carne e osso” [Para lembrar uma expressão de Miguel de Unamuno]. Pessoas que têm sentimentos, emoções, afetos, questões existenciais e sociais, pessoas assombradas por suas dúvidas e incertezas, e que buscam sentido, significação e respostas.

Partindo de seu objeto de estudo, portanto, proponho que a Teologia deva optar necessariamente por uma epistemologia crítica e uma metodologia transdisciplinar com vistas a uma prática pública. Apresentando-se como um saber dentro da proposta de transversalidade e de religação dos saberes, tornando-se relevante para os diálogos atuais da sociedade. O papel da Teologia deve ser antes de tudo o de proporcionar a compreensão da transcendência e da condição existencial no mundo por meio de um debate aberto, correlacional e integrador entre a revelação divina e a realidade humana. Sempre preservando a dignidade e a liberdade de todas as pessoas, sem exceções, uma vez que foi para a Liberdade que Cristo nos libertou.

Diante das crises e das convulsões que a sociedade contemporânea atravessa, e alguém já disse que isso é sinal de profundas e positivas mudanças, não fiquemos, colegas formandos, escondidos atrás de nossos diplomas, antes ousemos ser pensadores livres e independentes, que contribuem para que as pessoas consigam fazer as perguntas certas e para encontrarem as melhores possibilidades de respostas e caminhos. Portanto, utilizemos o conhecimento adquirido nesses anos de estudos, somados aos dons e talentos concedidos por Deus para fazermos da Teologia um saber convergente e integrador nas Ciências Humanas e uma voz profética e transformadora na sociedade. Não podemos nos contentar apenas em reproduzir o que já foi pensado, mas antes precisamos produzir um novo pensar e um novo agir teológicos.

Direi aqui o mesmo que já disse como consultor de empresas a muitos executivos que mesmo à frente de uma empresa a beira da falência permaneciam escondidos por atrás de seus diplomas. Como se o diploma o pudessem isentar de uma gestão desastrosa. Do mesmo modo não poderemos ser Teólogos que se escondem atrás de seus diplomas diante de uma Teologia desastrosa.

Eu costumo dizer o seguinte a esses executivos e digo hoje a nós formandos: ‘Um diploma nas mãos de uma pessoa sem talento e competência presta-se a mesma funcionalidade de um papel higiênico. ’
Portanto, exerçamos os talentos com os quais Deus nos dotou e usemos de competência, que significa nada mais, nada menos do que fazer as perguntas certas diante de determinadas circunstâncias com o objetivo a se escolher e se alcançar determinada prática e objetivo.

Caros colegas, não precisamos temer ao sermos tachados ou rotulados de hereges, ou melhor, para utilizar um conceito goffmaniano, não precisamos temer ao sermos estigmatizados como hereges quando ousarmos pensar além das fronteiras pré-definidas. E já disse certa vez um querido professor: ‘Herege é todo aquele que pensa diferente de quem detém e está no poder’. E que Deus salve os hereges! Não fossem os hereges não teríamos hoje o que chamamos de boa Teologia. Santo Agostinho não seria Santo Agostinho, ícone da Patrística, não fosse as controvérsias provocadas pelas ‘heresias’ de Pelágio. O Concílio de Niceia não produziria as bases teológicas do Cristianismo não fossem as heresias de Ário. E lembremos que para a teologia constituída pela Igreja em Roma, predominante no século XVI, Lutero, Calvino, Thomas Cranmer, dentre outros reformadores, foram considerados os hereges de sua época. E que Deus continue nos concedendo hereges assim, para ventilar ares sábios a produção teológica!

E por fim gostaria de lembrar um dos mais belos trechos da literatura mundial do livro Dom Quixote de La Macha de Miguel de Cervantes. Que considero poderia ser nosso lema ou mesmo o nosso juramento nesse dia. Afinal, a batalha de um teólogo é muitas vezes quixotesca.

Daqui à pouco nossa colega fará o juramento oficial, que chamarei de juramento canônico, mas agora proponho um outro juramento que chamarei de juramento apócrifo.

Dom Quixote fala da missão de um verdadeiro cavaleiro, eu ao parafrasear o texto de Cervantes falarei da missão de um verdadeiro Teólogo.

O que importa é ser fiel a minha causa. A missão de um verdadeiro TEÓLOGO, sua questão, seu ideal, não, seu privilégio é:

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível das injustiças
Negar quando a regra é vender-se ao mercado
Sofrer a tortura implacável que nos impõem os opressores
Romper a incabível prisão dos dogmas
Voar no limite improvável de um novo pensar
Tocar o inacessível coração
Dominado pelo individualismo e alienação
É minha lei
É minha questão
Mudar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras ideológicas terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

Mesmo que apenas uma flor brote do chão árido desse conturbado mundo, nossa luta terá valido a pena.

Queridos colegas meu desejo e oração é que, assim como os discípulos a caminho de Emaús, possamos ter nossos corações aquecidos pelas palavras do próprio Cristo e no partilhar da vida com outras pessoas, representada na Bíblia pelo partir do pão, possamos ter nossos olhos desvelados para, então, perceber que o próprio Cristo sempre esteve, está e permanecerá conosco nessa jornada como Teólogos.

Muito Obrigado!

domingo, 1 de julho de 2012

A Fé e o seu contrário.




"Não tenha medo, tenha fé" Marcos 5:36b

Será que a fé não deixa mesmo espaço para a dúvida? Como escreveu Miguel de Unamumo: "Uma fé que não duvida é uma fé morta". Penso que a dúvida é a atitude de um coração ávido por respostas, ávido por encontrar a verdade, portanto, um coração cheio de fé. O contrário da fé não é a dúvida, mas o medo. O medo de confiar que é Deus, e somente Ele, quem tece os fios da história humana, independente das dúvidas e das aparentes incertezas que nos cercam. Desconfio de um fé que tenta controlar a vida e se pauta por meio de um quadrado de certezas pré-formatadas (dogmas e doutrinas). Relacionar-se com Deus é uma empreitada de alto risco, afinal não temos qualquer controle sobre esse relacionamento, antes é Ele quem tem todo o controle, Ele é soberano. Cabe-nos apenas confiar nEle, em sua generosa bondade, imenso amor e ilimitada graça. Sendo assim, penso que é no terreno árido da dúvida que floresce a fé.
Ter muitas certezas e estabelecer, a partir da realidade da transitoriedade humana, uma única verdade, tentando alcançar uma fé perfeita é incorrer no pecado por excelência: a tentativa de ser igual a Deus. Somente Deus é absoluto e perfeito, somente Ele tem certezas, porque é Ele mesmo quem escreve a História.
Impor-se como parâmetro de comportamento uma fé insuflada de certezas, dona de uma verdade absoluta e voltada à exigência da perfeição é lançar-se numa fé doentia, fanática, intolerante e intransigente. É adotar um modo de funcionamento psíquico que Freud chamou de Neurose Obsessiva. Para ser saudável, e ter uma fé saudável, é necessário conscientizar-se de que somos humanos, vivendo num mundo de incertezas e de transitoriedade, confiando unicamente em Deus e em sua incondicional e irresistível graça.
O esteio da fé é um relacionamento vivo e dinâmico com Deus em Jesus Cristo. É a coragem de lançar-se nesse relacionamento sem medo. Sem medo de saber que apesar do melhor que se possa fazer você não tem o absoluto controle de nada. Mas, que de alguma forma, você pode nEle confiar.
"Jesus respondeu: Credes agora? No mundo tereis aflições. Mas tende coragem! Eu venci o mundo" Evangelho de João capítulo 16 versículos 31 e 33b

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sobre a Universidade


“Por certo, agrada-nos ver que, ainda hoje, existem [na universidade de] [...], em muitas áreas, homens que são personalidades de proa na ciência e na erudição e, ao mesmo tempo, homens de caráter absolutamente independente. Contudo, o número de medíocres submissos, muito procurados por sua submissão, está, ao que tudo indica, crescendo ali mais rapidamente do que em qualquer outra parte. Agora, pessoas do tipo [...] progridem – pessoas para as quais, do ponto de vista do governo, a nomeação para a universidade é essencialmente um ato de patrocínio, que confere vantagens financeiras e sociais.” (WEBER, Max. in Sobre a universidade: o poder do Estado e a dignidade da profissão acadêmica. São Paulo: Cortez, 1989, p.39)

Carta de encerramento de mandato como membro da Congregação Universitária e do Colégio de Coordenadores na Escola Superior de Teologia do Mackenzie:

[...] Agradeço aos colegas a confiança em mim depositada [...]

Neste último pronunciamento como representante é imperativo lembrá-los que a Universidade é o campo fértil onde se fomenta os mais sublimes ideais de humanidade. Portanto, não se é possível fazer a Universidade a partir de meia dúzia de burocratas. Antes, a Universidade é vivida e construída a partir da integração de esforços da totalidade dos que dela participam. A Universidade é a constituição visível da dedicação, do empenho e, sobre tudo, do comprometimento de seus docentes, discentes e administrativos em prol do desenvolvimento e da disseminação do conhecimento, tendo como regra magna a liberdade de pensamento. A Universidade é local da neutralidade axiológica, local onde deve ser possível o debate, o embate e a convivência das diversas cosmovisões. A Universidade é local da Ciência e do livre pensar! Sendo estranho ao conceito de Universidade a imposição de uma única cosmovisão. A Universidade não é local da convicção religiosa, ideológica, política ou partidária. Nem, tão pouco, local de disputa de grupos de interesse. A Universidade é local do debate acadêmico de mais alto nível, do respeito à diversidade de visões de mundo, da liberdade de pensamento e, principalmente, local do desenvolvimento científico que beneficie a humanidade.
Que Deus nos ajude nessa jornada.
'Em tudo seja Deus glorificado' (Regra de São Bento Cap. 57:9)
Regis Augusto Domingues